O veneno da madrugada
- segundaviablog
- 15 de ago.
- 3 min de leitura

Disseram um dia os antigos que o mal do mundo são as noites sem sono e vazias, em que elucubramos ideias mórbidas e pensamentos de suicídio. Sobre esse assunto, podemos contar vantagem, pois nossa cidade anda muito bem, já que ninguém aqui entristece de causa nenhuma, quer dizer, só ficam desanimados os que têm de dois salários pra adiante, porém estes podem comprar remédio e pagar a consulta, então não há problema. Para o povo em geral, nós damos a eles divertimento o suficiente, ocupados que estão em descobrir o que vão comer no outro dia. Uma medicina radical, mas eficaz, não há quem discorde disso.
Jonathan lamentou que a ação tivesse se dado com tanto espetáculo, pois de outro modo teria conseguido um jeito com os cem reais na sua carteira. Mas agora parece que querem se amostrar, e portanto põem os óculos escuros e simplesmente mandam recolher as capas de celulares e os gêneros alimentícios, que sem dúvida amanhã logo estarão na fase não comestível, tampouco importa sendo que na ocasião a ordem vinha de cima, é pra limpar tudo e tirar dali a pobretada que só emporcalha vende droga e comida vencida.
Mas com Jonathan não, com ele não seria assim. Não era um otário desses que ia ficar com seus produtos. Quando vieram recolher, não conversou. Seria estúpido dar moral pra esses inúteis. Importante era marcar mais ou menos onde ficava o depósito, que depois se juntariam lá de noite a fim de ressarcir de graça o que lhe era devido. Nada de desespero, fica quieto aí. À noite damos o bote. Está tudo combinado com o Mucura.
A mulher, ouvindo a história, discordou. Mais uma boba demonstração de macheza desse burro. Nunca que ia dar certo, mas vai lá, idiota. Já não te queria mesmo e era o que faltava pra sumir. Jonathan tomou as palavras dela como tentativa de dissuasão e prova de amor. Ficou mais orgulhoso ainda e agora que decidiu mesmo ir. Sábado podiam contar com ele na praça tendo as coisas de volta.
Em seguida, o óbvio, ou quase isso. Eles bem que foram longe, e puderam mesmo retirar do meio de frutas podres as duas caixas de que ele era dono, mais algumas coisinhas como pagamento ao Mucura. No entanto o barulho, embora discreto, foi o bastante para acordar o cachorro do vigilante que dormia, o qual hesitou apesar disso pois pensava tratar-se de mais uma costumeira vistoria autorizada noturna. Só que não. Estava sendo uma retirada cuidadosa demais para que não fosse segredo, e foi aí que correu e logo na sequência viu Mucura jogar-se na água para nela sucumbir sem que ninguém soubesse mais inclusive o que foi feito do corpo, se engolido por jacaré ou metido no meio das estacas de ferro. Já Jonathan passou perante ele como um raio de sombra trepado no muro, ao que num reflexo o vigia assustado fez o movimento e sua arma disparou, tendo em si do gesto achado que cumprira seu ofício e não teria mais razões para ir adiante procurar descobrir com segurança se sua pontaria era boa ou não.
Era. E foi por essa precisão que Jonathan viu escorrer de seu estômago e descendo entre suas pernas o sangue fluido viçoso cada vez mais rapidamente, até que uma hora escorou-se nas placas de metal que circundavam a praça para ali parar agonizante. Foi nesse momento que, recordando os acontecimentos recentes da manhã, lembrou-se de uma palavra dita pelos algozes, a qual ali sob o brilho da noite o preencheu de ira e ódio com suas últimas forças, de maneira a levá-lo a encontrar as paredes do mercado e manchá-las com o próprio sangue. Pela manhã, foi com um sorriso irônico e provocador que Marquito, colega de feira, olhou para o rosto do fiscal que via entre atônito e abobalhado a pichação encarnada que vingava, mesmo que só por um segundo, os amigos de Jonathan. Pega a tua higienização, filho da puta!, alguém gritou. Depois correu, justificando aos guardas que só repetira o que encontrara escrito bem a sua frente.






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