Trabalhar cansa - ou por que crescem os apps
- segundaviablog
- 19 de out.
- 2 min de leitura

Não adianta apenas fazer a denúncia e indicar a exploração. Para discutir um fenômeno, é necessário antes constatá-lo e compreendê-lo. E a constatação inevitável é que sim, muitos trabalhadores têm preferido o aplicativo a um emprego mais estável. Daí, trata-se de pensar a razão disso.
O argumento da ideologia, embora válido, tem curto alcance. Não são todos que se deixam levar pela ideia de microempreendedor individual. Muitos não se importam e nem conhecem isso. Há causas mais práticas em interação.
A exploração por plataformas é uma solução rápida e que não exige alta qualificação. A renda, embora baixa, ainda consegue ser maior que a média de trabalhos formais, como demonstram pesquisas recentes. A ausência de burocracia também é um atrativo importante. No mais, em que pese a perversidade dos desenvolvedores dos aplicativos e dos empresários que os financiam, em termos imediatos, é mais suportável ser governado por algoritmos do que por qualquer chefe grosseiro e imbecil.
A isso, soma-se um fator comportamental relevante. É que trabalhar, principalmente sob o capitalismo exploratório, cansa demais. São poucos os que querem hoje fazer isso todo dia. Podemos estar dispostos uma vez na semana para virar doze, dezesseis horas, mas não sempre. Essa flexibilidade é algo que pende a favor dos apps. Não bater ponto, não olhar para cara dos patrões sempre, matar-se por dias mas descansar quando tem jogo do seu time. Isso para diversos trabalhadores vale mais que garantias trabalhistas.
Claro, todas essas pessoas um dia envelhecerão, e ficarão desassistidas. Mas o capitalismo é também o culto do agora, e isso de modo geral é o que mais tem valor. Sem dúvida, o ideal seria que as pessoas formalmente empregadas não trabalhassem tanto, nem também sob um regime tão rigoroso, porém isso é algo que só pode se dar no socialismo. Enquanto não o geramos, que compreendamos melhor as opções que fazemos entre o ruim e o pior, ou entre o ruim e o mais ruim, que, embora se pareçam, não são para todos a mesma coisa.









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