Colonialismo, imperialismo e dependentismo
- segundaviablog
- 2 de dez. de 2025
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São diversas as táticas de dominação aplicadas pelo grande capital, em sua fase imperialista, que se destinam inequivocamente para o mesmo o fim, que é a expansão e a manutenção de seu poder predatório sobre nações batizadas por ele de periféricas. Sem dúvida, em vista desse objetivo, tais práticas guardam semelhanças muito grandes entre si. Contudo, em termos categoriais e práticos, é importante saber distingui-las.
Antes de mais, é preciso pensar com atenção sobre o que seja o imperialismo em sua fase capitalista. Certamente, ele não é da mesma ordem de quando Europa e Ásia se encontravam em seus tempos feudais ou anteriores. Ali, era o poder monárquico que avançava sobre outros territórios, com vistas a ampliar seus domínios no espaço. Já na fase moderna, quem avança é a empreita do capital, para a qual o Estado serve de suporte e agente de interesses. Por certo, as forças nacionais também se alimentam desse processo expansivo, porém esse efeito tem um valor secundário diante da imprescindível valorização do valor, que é o que na verdade impulsiona os países a controlar, por diversos meios, as ações gerais de nações vulneráveis.
O exemplo mais claro disso em nossa época sem dúvida está nos Estados Unidos, que consolidou seu domínio imperialista após a segunda guerra. Se tomarmos num plano abrangente o conjunto de suas inúmeras intervenções na soberania dos países, veremos que a tração básica desses movimentos se encontrava em nichos econômicos a serem diretamente favorecidos com tais operações. Agora mesmo, sob a égide de Donald Trump, notamos o desespero das empresas em frear o poderio tecnológico chinês e apropriar-se das cada vez mais escassas reservas de petróleo e minerais disponíveis no mundo, o que explica, dentre outras coisas, o interesse obsessivo dos ianques pela tomada da Venezuela.
Claro que se poderia dizer, fundado na teoria marxista, que mesmo na época dos grandes impérios, o interesse maior sempre foi econômico, e isso é correto. Contudo, nesses períodos, perseverava a pilhagem governamental e não por empresas, e isso causa uma significativa e histórica diferença.
Com as grandes navegações e a ocupação de continentes ultramarinos, estabelece-se o modelo colonial como normalmente denominamos hoje, baseado não somente no domínio territorial, mas também cultural, econômico e administrativo. Assim, a partir dessa organização, podemos definir o que vem a ser a prática colonialista, que se destaca pela hegemonia totalizante das dinâmicas sociais de uma comunidade, mas que tem sobretudo os pés fincados na imposição política.
Nesse contexto, o dependentismo nos chega como um fenômeno mais recente, e que diverge do colonial, embora tenha as mesmas raízes imperialistas. Na ação dependentista, as potências não se preocupam mais em ter a governança administrativa, nem territorial, nem cultural, e sim em garantir a fragilidade econômica da subsistência de uma certa localidade, que irá carecer dos grandes centros tanto para obter os itens necessários ao seu desenvolvimento, como também precisará destes para vender sua produção, numa relação claramente desigual, assimétrica e que garante o enriquecimento contínuo das poucas nações que dirigem o modelo.
O dependentismo interno também é possível, principalmente em países de grandes dimensões, onde algumas regiões enriquecem exatamente às custas das zonas mais empobrecidas, que não podem se manter a não ser dentro dessa relação exploratória.
O colonialismo segue firme e presente mundialmente. Além dos Estados Unidos e de potências mais antigas, o exemplo mais típico provavelmente é o de Israel, que, de forma intensificada e violenta, submete diversos povos e territórios vizinhos ao seu jugo, numa autêntica jornada de controle dizimador.
Mas, para além de tais casos, o dependentismo procede em escala ainda maior e é muito menos combatido, seja pela sofisticação de seus métodos, cuja agressividade é bem menos evidente e disfarçada de relações comerciais, seja por uma certa normalização da prática que resigna os países subalternizados.
No entanto, os prejuízos do dependentismo são igualmente nefastos. Tanto é que muitos dos efeitos do colonialismo também se repetem nas ligações dependentistas, enquanto consequência colateral. Com muita regularidade, ingerências administrativas e homogeneizações culturais são identificadas nos vínculos dos centros com os países dependentes, sendo o Brasil mais uma vez um caso típico, em que a influência dos Estados Unidos engendrou golpes e ditaduras e promoveu mudanças culturais profundas, particularmente nas zonas urbanas.
O grande problema, desse modo, na confusão entre colonialismo e dependentismo, está justamente no combate das causas fundamentais. A tendência de tachar fenômenos de dependência como manifestações coloniais dificulta a identificação dos pontos exatos da origem opressiva, que se encontram não propriamente na dominância política nem cultural, e sim no embate econômico, cujo cerne permanece firme em sua forma de manipulação das nações subalternizadas.
Com isso, os efeitos espraiados do dependentismo permanecem em vigor, alargando-se inclusive para os campos cultural e político, fazendo prosperar de maneira vantajosa para os poderosos a narrativa neocolonial, que se combate com veemência, porém com resultados baixamente expressivos, porque o inimigo está em outro lugar.
Isso também vale para os movimentos internos, ditos colonialismo, mas que são igualmente relações de dependência, como as que acometem o Norte do país, sempre à espera das decisões das matrizes do Sul e Sudeste.
Identificar os elos de dependência, perceber as ligações assimétricas que unem diversas regiões e definem margens e centros, combater o hegemonismo econômico das grandes empresas e Estados que as abrigam, está aí a tarefa que emerge e demanda de imediato uma resposta contra as formas contemporâneas de submissão dos povos.
Enquanto isso não estiver claro, seguiremos golpeando a esmo, buscando memórias de oponentes invisíveis, que, embora tenham sido e talvez ainda sejam reais, revestiram-se de outras vestimentas e meios de atuação.






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