Por uma literatura artesã
- segundaviablog
- 18 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

Denominávamos antes estética do erro, mas vimos ser esta uma terminologia malsã.
Ora, seria demasiado falar de uma estética em sentido extra, largo, posto que para a arte só podemos ter uma definição guarda-chuva. Sem risco de omissão, produzir objetos que proporcionem experiências estéticas. O formato disso depende de cada eixo. Há conceito de arte, porém não de formas nem conteúdos universais.
Mas o mundo todo estetizou-se, está aí a raiz do grande problema.
Se a realidade encontra-se totalmente dada ao sensível, é porque proliferou sobre sua constituição uma técnica que se abraçou ao industrial, sem o que o empreendimento seria restrito. A indústria cultural não existe mais porque se converteu no próprio dar-se ao mundo da mercadoria.
Disso, pensamos então que enfim se pode gerar uma diferença, a qual se encontra em assumir uma forma não industrial, não estandardizada do fazer artístico.
É aqui que passamos ao específico da literatura. Com outras artes, talvez algo se dê de modo diferente. Então vamos pensar aqui na escrita, no exercício do ato de elaborar uma obra em livro. Para sair dos padrões e da ubiquidade indiferente da indústria, é preciso manter os atributos do artesão, ou seja, daquele que não está preparado para produzir em larga escala segundo um modelo. Somente desse modo alguma singularidade é capaz de ser emergida.
Isso não significa falar não à técnica, e sim à tecnologia, quer dizer, ao discurso articulado da técnica, aos aparatos semiprontos, aos procedimentos pré-moldados, enfim, a tudo que remeta ao esquema de proporções infinitas.
Dizer sim ao incerto, ao imprevisto. Repetir na certeza de que um trabalho não será igual ao outro, por não estar sujeito ao escrutínio maquinal. Atuar na linguagem não com o sentido naif de eterna primeira vez, mas de quem sabe que as condição de produção nunca são as mesmas.
Não submeter o texto a imensas revisões de estilo que apagam o estilo, recusar a lógica dos controles de qualidade, dos pré-testes, e receber a tensão do qualquer coisa que pode ser o destino de um livro.
O artista, no caso, a sair será sem relação com o anacrônico. Certas práticas, é preciso que saibamos, tem pouco a ganhar com a ideia social de progresso. Disso, os cozinheiros parecem saber muito bem.
A literatura artesã é a literatura como precisa ser feita, nas vagas simbólicas de sujeito e obra, autor e mundo, singularismo e universalidade, o real e seu reflexo intuído. Sonoro não às fatalidades em série.
Nas bordas do hegemônico total, um espaço às mediações do livre-escrito.






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