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Não espera colheita quem semeia pássaros

  • Foto do escritor: segundaviablog
    segundaviablog
  • 1 de ago.
  • 5 min de leitura

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Pode-se afirmar com rigor e sem maiores receios que a obra poética de Clei Souza reflete a imersão e diversidade de seu percurso existencial, marcado por incursões  prolíficas e emblemáticas na atividade política, na práxis educadora, na poesia, no conto, na música e nas artes visuais, formando, tanto em sua singularidade quanto em seu conjunto, impactantes expressões de um sujeito ativo e comprometido com a causa e a arte de seu tempo e de sua coletividade.


Dentre sua numerosa produção, provavelmente um dos maiores exemplos dos atributos acima reportados desponte nas páginas de Não Espera Colheita Quem Semeia Pássaros, ganhadoras do Prêmio Internacional de Poesia Literatura e Fechadura, e que agora nos chegam em livro pela editora Nauta, nome desta apropriado para um escritor viajante.

A obra está dividida em cinco partes, as quais designam os destinos variados dos poemas. RioAmar registra as afecções das águas e da paisagem; Hora, a passagem inexorável do tempo; Eros, o amor que se faz carne. Criar, a arte em profusão e enquanto A Vós estapeia a face cínica dos poderosos.


Mas não esperemos aqui nenhum esquematismo ou didática lírica. A divisão inicialmente proposta serve como porta de entrada, porém nunca de saída. Ingressar nos poemas de Souza é antes oferecer-se ao efeito sinestésico de múltiplas sensações reunidas, tais como é o mundo, o qual ele procura capturar simultaneamente como efemeridade fotográfica e permanência do instante, o que pode ser bem notado nos versos de A praia da princesa,


este mar é o mesmo e já é outro

este vento é o mesmo e já é outro

este amor é o mesmo e já é outro

é o mesmo e já é outro este dia morno

 

vê, tudo é novidade

e tudo é retorno

 

Em que o espaço é evocador de sensações presentes e de dias idos, de pensamentos que se foram e outros florescentes, mostrando que a realidade a nossa volta se oferece sempre como devir, como transformação permanente que não passa incólume, que deixa rastros de existência e por isso também é memória, por isso também é forma e ordenação da vida.

Contudo, quando parecemos estar bem assentados na dinâmica das imagens que se movem e ficam, os versos nos deslocam e nos levam para o terreno incerto da utopia e do sonho, chamando-nos a atenção para o fato de que se trata disso O navegar:


teu navegar

não é pelo milagre de mil peixes

o que te move é a baleia impossível

 

Aqui, mostra-se também a naturalidade com que o poeta trafega entre as mais finas tradições da cultura, traço que se revela igualmente em outros poemas, em que brotam referências bíblicas e a grandes monumentos literários, como Shakespeare. Tudo isso sem recorrer ao pedantismo ou a alguma forma de ostentação erudita. Os intertextos que aparecem assim se evidenciam porque pertinentes, ou seja, porque são capazes de nos dar perspectivas profundas e perspicazes acerca da mensagem a ser trazida, cuja consonância dialoga com a loquacidade de outros livros.


Também nesse mergulhar mais profundamente nas águas escuras e desconhecidas, é que se vai de pouco a pouco perdendo a visão lógica habitual para abrir-se aos mais densos meandros da libido, em que a lubricidade dos indivíduos desponta como a via própria da autolibertação desejante, participando aí juntos corpo, memória, tempo e vida, deixando claro que a realidade humana é sensual:

 

orgia

 

como estar a sós contigo

se desde o teu umbigo

há vestígios

de carnes de tempos idos?

 

em tuas pernas há as de uma mulher antiga

fugindo de um marido homicida

em teu gozo, o gozo de ruas iluminadas a gás, clandestinas

em tua voz há os silêncios de uma tia de outrora, suicida

em teu olhar o de um pai que olhava lentamente a vida

 

ainda que a sós contigo

nos sinto numa estranha orgia

rondam nossa cama

resquícios de outros dramas

outras tramas

outros corpos

outros dias

 

Ascendemos e descendemos, assim, do sexo ao mundo, e o reverso, desvelando uma realidade-pulsão, em que aparecem indiferenciadas a libido e a razão consciente, originárias aí de um mesmo movimento, um mesmo fluxo de existência. Mas já não nos dizia isso Freud? O poema de Souza nos oferece, sem desdenhar dos calhamaços acadêmicos, a intuição mais pura e imediata daquilo que se encontra edificado pelo cânone da teoria.


O prazer, desse modo, nos ensina, quando bem vivido e capturado pela poesia, no que conecta então a contraface ensinadora do fazer artístico, tal como é forma de experiência. Com ele, não somente damos a imensa compreensão do que vivenciamos em nosso íntimo, como nos expandimos inevitável para o que nos cerca, porém refigurando-o na maneira acrescentadora de uma criação:


foto

 

a fotografia

mira-me em cheio

veste-me os olhos

com o olhar alheio

 

olhar que nos transporta

deste agora

a um outro

                   que já se fora

mas ainda

                 em plena viagem

com sua rota

de retina em retina

 

como a estrela

                       que mesmo já morta

ainda nos ilumina


A fotografia que me enche os olhos com o olhar alheio é a que me permite sair de mim, ver-me e aos outros por fora e com isso expandir-me, alargar os meus horizontes de visão. Está aí o trabalho da arte e o que nos permite dizê-la sempre como criativa, posto que formadora de novas e agudas percepções que não estavam previstas de nenhum modo em meu eu, fazendo-nos então ressurgir cada vez maiores e inesperados, únicos e acrescidos.

O leitor mais pragmático que tem nos acompanhado até aqui pode estar questionando o fato de, apesar das ideias serem muito bonitas, elas não influenciam em nada o preço do pão. A esse crítico hipotético, responderíamos em primeiro lugar que esse é um ledo engano. Contudo, seria mais acertado pensar que o interlocutor só se daria por satisfeito quando encontrasse a parte que encerra o livro do poeta, em que a desigualdade, o Estado opressor, a violência e sobretudo a dominação destrutiva do capital se pronunciam com grande contundência, deixando indiscutível o fato de que com metáforas também são feitas as mais pungentes denúncias:


a fungiformigenocida refeição

que te alimenta

                         te elimina

 

 

o mal nosso de cada dia comei hoje

matai a fome como a presa

que sem pressa

se mata a prazo

[câncer para tua carne

veneno para tuas veias]

 

milagre de um malogro:

nos tempos de plantar e de colher

estão os de matar e de morrer

 

ao agro

ao necro

negócio

importam apenas

                         cifras & safras

 

aos transgenocidas

pouco importa

                      o mais que se sofra

a dor dos de agora

e dos não nascidos ainda

os futuros fetos

afetados

crianças

               rotas

                           alteradas

 

Ao acompanhar os versos de Agronecronegócio, podemos sentir como nunca em outro lugar o silenciamento dos poderosos em favor do existir, calados que estão pela voz potente da poesia, o que nos dá ainda um sinal do interesse das classes dominantes em fazer com que esta e o poeta desapareçam: quando verdadeiros, estes só podem cantar contra a dolorosa marcha dos mandatários do mundo.


Assim, encerrada a última seção do livro, os ciclos da elaboração de Clei Souza se completam, e tem-se a panorâmica da imagem que guia os poemas na obra recolhidos, qual seja, a de um imenso Rio a que se dirigem inúmeros afluentes, sendo este então chamado mover, fluxo, dínamo, Vida, e que, queiramos ou não, estamos todos trafegando sobre ele. Logo, para não nos desperdiçarmos em uma imobilidade estéril, é melhor seguirmos como o poeta os Ensinamentos da Serra das Andorinhas:

 

não espera colheitas aquele que semeia pássaros

com o crepúsculo aprender a ir embora

aprender a renascer com a aurora

aprender com a serra que a pedra mais dura

pode irmanar-se à água mais pura


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