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A claustrofobia do tema ou o escritor do Amazonas na colônia literária penal

  • Foto do escritor: segundaviablog
    segundaviablog
  • 16 de mai.
  • 2 min de leitura


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A pandemia foi uma catástrofe mundial. Pavorosamente, Manaus chegou a ser o epicentro da calamidade planetária. Os escritores locais, por sua vez, cumpriram seu papel, e relataram com densas intuições estéticas o que de mais grave e terrificante ocorreu ao longo da grande crise. 


Contudo, mais uma vez, o vírus e o esquecimento saíram vencedores. Assim como em nenhum outro lugar central teríamos um evento tão grave como faltar oxigênio em hospitais sem o pânico e a interferência punitiva das autoridades nacionais e mundiais, somente uma literatura aqui situada tratando de tal realidade passaria em brancas nuvens, como foi o caso, e que nos disse que mesmo nossas mais destruidoras misérias não são trágicas, pois somos os morríveis e que podem ser ignorados sem arrependimento. 


Tal constatação diz muito sobre nossa periferia humana e política, mas também é um sintoma inequívoco de um confinamento literário que insiste em se manter. 


O escritor, se do Norte, ainda mais se do Amazonas, está confinado a falar do exótico. Não pode ele retratar uma cena urbana, posto que no imaginário central não há urbanidade por aqui. Muito menos representar acontecimentos em escala global, já que somos as bordas invisíveis da grande esfera. 


Se fala da crise do pequeno burguês, ou da vida classe média, isso só pode ser dito falando de fora, porque não temos de verdade classe média. 


Se tem crises existenciais, essas não passam de bobagens juvenis. Porque as crises existenciais são para os filósofos, coisa de que não somos providos. 


De igual maneira, não podemos falar sobre tecnologia, ciência, mundos distópicos. O que será que esses brutos querem? É o que perguntam. 

  

Então, resta escrevermos para nós, ou nos disfarçarmos de paulistas. O isolacionismo não é o que buscamos, mas o que desejam que procuremos constantemente. 


Aí sim, falamos do exótico. E o que nos dizem então? Ah, eles são mesmos regionalistas. Não há como escapar dessa armadilha. 


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Enquanto isso, o escritor virtuoso ganha prêmios por falar de como foi difícil atravessar o vírus pedindo comida pelo iFood, confinado em seu apartamento. 


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Mas, contudo, a literatura se move, é o que dizemos a sua revelia. 

 
 
 

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