A doxografia de Frederico Neto
- segundaviablog
- 21 de set.
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1
Sobre as danças e ritos, disse que também achava bonito, e gostava de assistir. Mas não era por essa razão que se sentiria obrigado a acreditar naquilo tudo. Desculpem, para mim é bacana, mas não tenho por que crer. Andou ouvindo muita conversa de pastores? Menos ainda. Eles é que não levo a sério mesmo, nem nada que venha dali. Tinha grandes dúvidas dos sujeitos. Então riram dele, e depois julgaram-no mal-informado, alegando que o que renegava era seu eu e sua vida. Ele respondeu que pode ser. Na verdade gostou da ideia, mas não quis discutir. Também tratou de não se sentir tão especial. Provavelmente existiram e existem outros assim entre nós, que desconfiam. Esse não é um privilégio dos de fora. No entanto vai para eles, respondeu o patriarca entre risos de pequenos chistes.
2
Foi porque queria andar mais por aí, sem pretensão. Achou emprego nos serviços gerais de uma terceirizada e se mandou de vez, embora enviasse uma sominha para os pais a cada dia 30. Envidou esforços para ter uma vaga no teatro. Gostou. Meses depois, já era figurante em uma das apresentações. Pensava, então, que deveria escrever Uirapuru, peça fundadora do mito amoroso amazônida, e assim o fez. Os professores disseram que ele tinha talento, porém não recomendaram que fosse tentar viver de arte. Não é possível para você, retrucaram, sendo que para nós era quase um milagre. Ele não acreditou.
3
Por que você ganhou esse nome, questionou a menina de cabelos negros e lisos, amante que adorava estar com ele sem nenhuma nesga de promessas, desapegada à emoção. Contou para ela que certa vez a mãe, passeando na cidade, leu um livro e achou a pronúncia do autor agradável, e a replicou assim para dar-lhe esse nome. Sem dúvida, ele mentia. Para ser sincero, não tinha a menor ideia de que como fora ser chamado dessa maneira. Mas a ilusão é a dicotomia necessária do real, elucubrava de si para si. No mais, ela gostou da história, e estava salva a melancolia pálida e incriadora do domingo.
4
No esconderijo onde traçava versos e cenas, ninguém o conhecia. Mas bastava andar nas ruas e nos bares que entornavam o largo para ser objeto de chamamentos e apresentações. O doce canto do Uirapuru encantava a todos. Mas um crítico de fora tratou de cortar-lhe as asas. Não tem muita ou tem demais a cor local. Esse menino precisa ser mais decidido. Está claro que foi assimilado e virou as costas para os seus, mas justo na hora da ascensão, no momento errado. Por outro lado, não convence usando nossa peruca. Somos mais ridículos que isso. Frederico respondia à rejeição com ironia e pouco empenho. Para ser sincero, não sabia o que dizer, pois acreditava estar só fazendo arte. Mas não são da humanidade os martelos dos niilistas? Descobriu com pontas agudas a equidistância entre o concreto e a aldeia.
5
Não é nada, tão somente o meu caminho. A droga é acessível e o álcool também. As mulheres nos amam por muito ou pouco, tanto faz. Ontem pichei um poema no muro da esquina, mas o que fez o prefeito me processar mesmo foi o caso dos lambes. Estou famoso, poeta das ruas e dos jornais. Dramaturgo imberbe das vitrines quebradas e esquecidas. Primeiro e último som do uruá quase quebrado, vivendo da amizade e da diária de uns quintais limpos, mas esses só nos dias de sol e de fome ubíqua. De resto é artista, é famoso, está no quarto e de lá saem filigranas de chuvas brilhantes. Tornou-se o que era, assumindo e negando igualmente seu parco destino.
6
O vírus pegou e matou muitos e inquietou a todos. Ele, meio que jovem, pensou que escaparia. De início, leves sintomas gripais, que evoluíram tampouco. Mas existe uma coisa chamada sequelas, explicou-lhe o médico, e foi o que lhe causou a perda de respiração e a loucura. Já não podia olhar mais para a máquina e tinha medo das sombras no quarto. Foi Lu, uma admiradora, a última que teve enquanto sóbrio, e de quem ouvira repetidos nãos em pedidos de casamento – sim, ele desejou no crepúsculo figurar como burguês - a pessoa à qual coube a tarefa de chamar-lhe os parentes para recolhê-lo da rua, abraçado a um cachorro caramelo, a quem protegia dos ataques do dono da churrasqueira. Os jornais, no entanto, ignoraram esse fato heroico, e relataram o episódio com sua protocolar desdita.
7
A igarité tinha função meramente decorativa ou simbólica, mas era para onde quando lhe pediam fotos se dirigia. Os visitantes da universidade falavam que ele se consagrara pelo rito perfeito da suprema ruptura. A comunidade, por sua vez, adotou um materialismo que certamente o alegraria se estivesse são, falando que não passava de um acontecimento fortuito, embora triste. Nada tinha significado para ele. Olhava o horizonte e agora o enchiam de louros. Na sua cabeça, ninguém sabia o que pensava, sequer ele mesmo, apesar de a irmã contar histórias de que ainda se comunicava com o grande teatrólogo, de quem ouvia fortes proposições em defesa da arte e da voz de sua criação. O Uirapuru no ano posterior foi encenado em São Paulo, consagrando uma trajetória de figura genial e oblíqua. Tudo errado, ou talvez azar e desengano. Era isso que o pai lhe dizia agora, posto que então enfim o compreendia.






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