As tarefas revolucionárias da cultura no mundo presente
- segundaviablog
- 26 de set.
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Curioso pensar que uma das principais tarefas revolucionárias seja a fabricação de memes. Vez por outra, aparecem artigos de periódicos progressistas que ou instam suas alas a gerar um envolvimento maior nessas práticas ou enaltecem os méritos da esquerda em sua atuação, fortalecendo a ideia de que se trata de um campo de luta. Sem dúvida, o território dos memes é uma zona de interferência na cultura, mas cabe pensar o lugar da própria para a ação subversiva nos dias de hoje, quer dizer, antes de abrir nossos computadores para colar figurinhas, precisamos nos perguntar se de fato tem alguma importância fazer isso, o que nos remete às questões de fundamento, das quais costumeiramente nos períodos hodiernos nos esquivamos de pensar.
Também, diante de tais interrogações, é preciso recordar sempre dos ditos de Mao Tsé-Tung, que, com sua simplicidade costumeira, define um regime de prioridades nas contradições a serem debatidas. Está aí algo que nossos camaradas identitários, por exemplo, não compreendem. Muitos deles alegam frequentemente que sua luta por reconhecimento de grupos menos visibilizados é subalternizada no painel da disputa socialista. Mas se esquecem de pensar que a lógica de destituição da ordem do capital é que demanda isso. Só conseguiremos produzir uma sociedade igualitária se antes derrubarmos a opressão principal. Logo, as lutas precisam convergir todas para esse fim, sob pena de converterem-se em um diversionismo paralisante, que nos impede de ir em frente. No âmbito da cultura, estamos diante dos mesmos riscos, os quais merecem aguda reflexão. Se não pensarmos o sentido de sua ação para a causa maior, o máximo que conseguiremos é divertir a plateia ou gerar uma imagem simpática, mas sem rumar ou até mesmo obliterar os nossos objetivos principais.
Importante ainda falar que o termo cultura encerra para nós uma dicotomia patente, firmada na paridade entre os fenômenos culturais comunitários e a indústria cultural. Com a expansão da dinâmica capitalista e de suas premissas de consumo, os produtos de entretenimento em massa puderam expandir-se ao nível de confundirem-se com a expressão própria das manifestações de um povo, a ponto de podermos falar sem constrangimento de cultura geek, nerd e termos afins, sem pensar que na verdade trata-se de objetos apropriados por determinados grupos econômicos, e que detêm o monopólio intelectual e material sobre sua produção. Contudo, isso não impede que os indivíduos atuem em sua esfera, promovendo e ampliando o alcance de sua difusão, o que inevitavelmente leva a confundir produtos de venda com a sua cultura própria, isso sem falar nas marcas de alimentos, bebidas e outros itens mais que não se prestam inicialmente a uma apreciação simbólica, mas que acabam funcionando igualmente como tais, de modo à constituição do sujeito converter-se totalmente em um simples reflexo de seu contexto de consumo, com o que chamamos, mesmo que enviesadamente, tudo isso de cultura, com o fito não de chegar ao diagnóstico de que esta fora na verdade entrelaçada, como defendia Fredric Jameson, mas sim substituída pela indústria cultural, embora seus estatutos originais permaneçam ativos em algumas posições secundárias.
Certamente, aqui estamos diante de um ponto em favor dos memistas. Se a indústria cultural tem tomado a forma de cultura nas sociedades em que impera o modo de produção capitalista, e se os memes são um item destacado dessa nova organização, parece-nos de grande valia trabalhar neles para assumir proeminência na vida cultural do presente. Contudo, apesar dessa constatação, isso ainda não responde em que medida ações culturais podem auxiliar na construção de um horizonte revolucionário hoje.
A cultura, embora sabidamente dotada de uma autonomia relativa, não age de forma independente dos demais movimentos da economia, em especial quando falamos de sua forma industrial. O reverso, no entanto, não é sempre verdadeiro. As atividades e mudanças culturais, na grande maioria das vezes, têm pouca ou nenhuma força de intervenção na dinâmica do mercado. Podem envidar insurgências aqui e ali, mas com muita dificuldade são capazes de expandir sua influência em um nível mais profundo do ordenamento social. As últimas grandes convulsões, que puseram o liberalismo contra as cordas de alguma maneira, vieram ou das crises cíclicas do capital ou de certos eventos políticos, para os quais no máximo a cultura ofereceu algum suporte ou linhas de continuidade, sem, porém, alterar ou indicar no todo as direções de mudança.
Assim, não devemos nos oferecer ao risco de superlativizar o papel da cultura na perspectiva revolucionária. Sem dúvida, ela pode ser um motor de várias alterações, ou ainda uma potente caixa de ressonância para os insurretos. Contudo, a primazia da revolução continua a pertencer precipuamente à classe trabalhadora organizada que, através de sua conjunção, pode produzir as condições materiais factíveis para derrubar o poder material da burguesia.
Entretanto, como dissemos acima, o apoio das práticas culturais é importante, e, de qualquer modo, constitui um território de luta. Abandoná-lo sem dúvida não é uma das opções disponíveis, o que não quer dizer também que aí não haja entraves ou dificuldades a serem consideradas e debatidas não só no que diz respeito às chances de êxito, como igualmente nos locais em que vale a pena travar os embates mais necessários, e que podem verdadeiramente conduzir a um melhor posicionamento das classes subalternizadas frente aos poderes dominantes.
As redes sociais, por suas características, não oferecem alternativas autênticas de expansão da luta socialista. Primeiro, porque não constituem de nenhum modo uma arena livre, e sim dominada pelas Big Techs, as quais obviamente estão a serviço de seus interesses, quais sejam, o do grande capital. Desse modo, as vozes divergentes são costumeiramente silenciadas ou limitadas em seu alcance, a ponto de ficarem mantidas como meros exemplários de um suposto verniz democrático, que se apresenta ao grande público para provar, segundo os seus administradores, a liberdade grandiosa que as mídias digitais são capazes de oferecer.
Mas não é somente isso. Há uma camada mais profunda a ser explorada nesse problema. Mesmo quando as vozes dissonantes ao status quo vigente se manifestam, elas o fazem sob a lógica e os paradigmas estéticos já instituídos, e que são amplamente favoráveis aos domínios reacionários. O youtuber de esquerda, quando propaga princípios marxistas ou debate com ditos liberais, faz isso dentro de uma estética que é comum a qualquer outro vídeo, de modo que o espectador percebe a altercação não como uma genuína contenda política, apta a modificar a realidade, e sim como mais um episódio da miscelânea de produtos oferecidos pela rede e que bem poderia ser um confronto acalorado sobre o novo jogo de videogame ou filme de super-herói. Mesmo aqueles que iniciam suas transmissões enunciando uma estética divergente, livre dos cortes, proposições rápidas ou interpolações aceleradas de imagens, vão sendo pouco a pouco arrastados para uma construção que se aproxima de modo gradual, conforme sua reputação vai aumentando, ao modelo praticado por aqueles que possuem milhões de seguidores, demonstrando que aquilo que os grandes influenciadores propagam na verdade é a regra intransponível, e que se deve fatalmente acorrer a ela caso não se queria permanecer na irrelevância. Assim, os neófitos vão sendo arrastados até integrarem-se a esse roteiro espetacular que configura a ação política agraciada pelas multidões, de preferência também com muitos momentos provocativos e de duelos aos gritos, de maneira aos espectadores se encontrarem familiarizados em relação ao que assistem frequentemente enquanto entretenimento em seu tempo livre, transformando então o debate político em mais uma faceta do conjunto de atrações e divertimentos, destituído de substância real, convertido que está em apenas um show.
Dentro dessas condições, vale muito pensar de maneira paralela ao que Lenin dizia a respeito da participação de comunistas no parlamento burguês, cujo papel seria tão somente de ilustrar as massas, mas sem nunca ter a pretensão de que dali sairá uma mudança substantiva. Nas redes do grande capital, tudo que se pode fazer são breves acenos de contraposição, e isso ainda nos casos em que não sei cai no risco de ser incorporado totalmente à lógica das atrações midiáticas, tornando-se anódino e inofensivo.
Portanto, se queremos alcançar algum êxito em favor de uma cultura revolucionária, não há saída que não seja retornar aos trabalhos de base e envolver-se nas práticas mais orgânicas dos diversos grupos populares, no que a música talvez seja um forte mecanismo de entrada, pela força e velocidade de seu alcance. Sem dúvida, há quem veja nessa proposta um anacronismo diante da realidade vigente, mas igrejas estão aí para provar o contrário. A onda conservadora que tomou o país começou com transmissões ideológicas focadas em comunidades em células, e não em grandes veículos de comunicação. Do religioso, passou-se ao político, e hoje temos essa grande horda reacionária dominando inúmeros setores sociais. Certamente, não falamos aqui em instrumentalizar a cultura para fins reversos, pois esta deve ser inevitavelmente livre, porém, essa liberdade consiste em ressoar também os dizeres emancipadores do povo, o que pode ser feito justamente instigando ele próprio a gerar esse novo conjunto de diretrizes, das quais o trabalho dirigido das vanguardas
revolucionárias pode ser um primeiro impulsionador. Pensando nisso, favorecer a criação de grupos teatrais, literários, folclóricos e musicais em bairros periféricos, e que contenham um legítimo viés anticapitalista, pode ser uma prática corriqueira e que vai ajudar em muito na formação de uma cultura socialista, dentro da qual os eventos das redes sociais aí sim podem aparecem como um momento de confluência, mas não como emanadores dessa condição transformada.
Contudo, vale lembrar que a cultura, embora seja uma mediação contribuinte, jamais pode ter a pretensão de converter-se em estratégia de autêntica modificação por parte dos revolucionários. Seu papel deve ser somente o de um índice motivador, criador de um referencial de luta idealmente disseminado, mas cujo caráter de ação cabe à esfera política executar por seus trâmites, deixando a cultura atrelada ao desprendimento que lhe é inerente e que deve necessariamente ocorrer, sob pena de que perca seu sentido e substância.
Em resumo, o trabalho da cultura na revolução é limitado, mas importante. Devemos criar e disseminar uma cultura revolucionária, porém com plena ciência de seus limites imanentes e também dos veículos de sua propagação. A guerra contra o capital tem de ser travada em todos os lugares, mas não da mesma maneira. De todo modo, é mister que não nos limitemos mais ao TikTok e o Youtube, e comecemos a formar agora uma verdadeira cultura de antiopressão.






Excelente reflexão parabéns para seu autor!!! Importante pensar como fazer do âmbito social das redes e mídias um lugar público de debate e discussão política e não expressão isolada da ironía pessoal ou da raiba e ódio de indivíduos na sua solidão e exclusão!!!