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Camus versus Camus

  • Foto do escritor: segundaviablog
    segundaviablog
  • 16 de set.
  • 2 min de leitura

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Não é propriamente inexplicável ou inesperado, embora não deixe de chamar a atenção, o fato de que um escritor da estatura de Albert Camus, que escreveu algumas das obras ficcionais e ensaios mais decisivos para a compreensão da condição humana no século XX, decline a um nível juvenil quando versa sobre a questão do marxismo. Ali, ele parece abrir mão de toda sua aguda verve analítica para recorrer às teses mais banais e corriqueiras, típicas de qualquer indivíduo semiformado e semi-informado, como os que vemos hoje adotando sítios duvidosos de internet como absoluta referência, sem o menor filtro. 


Assim, por exemplo, em seus Ensaios e Conferências, vemos abundar noções estereotipadas acerca do marxismo, como fim da história, desaparecimento do indivíduo, luta pela liberdade e afins. Tudo isso sem o menor contraponto, sem a mínima intenção de lançar sobre essas ideias uma sombra de desconfiança. 


Claro que temos de levar em conta para essa avaliação o contexto propagandístico da guerra fria, que praticamente obrigava os sujeitos a estar de um lado ou de outro. Por conseguinte, localizando-se o franco-argelino no Ocidente, era natural que fosse bombardeado com as mais baixas caricaturas do marxismo e seu dito fiasco democrático na experiência soviética. Porém, mesmo diante de tal cenário, era de se esperar de um gênio do seu nível algum grau de contraditório. 


De todo modo, por mais que o quadro aqui desenhado nos sugira um grande lamento, há uma lição válida a ser tirada do episódio Camus, que é a de que um intelectual precisa sempre desconfiar de si mesmo, e nós mais ainda dele. Não é porque este alcançou a excelência em um campo que isso vale para qualquer ramo em que atue. Logo, somente a crítica permanente pode manter as ideias em um prumo razoável e socialmente relevante. 


Mas, sim, continuemos a ler O Estrangeiro, A Peste, A queda, Calígula, O mito de Sísifo. São monumentos da literatura mundial. 


O restante, por sua vez, não será esquecido. Que siga seu curso, porém com grandes notas de rodapé e muitos contraditos. 

 
 
 

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