Desterro
- segundaviablog
- 30 de jul.
- 3 min de leitura

Perguntado sobre o que achava do que estava vendo, o fotógrafo limitou-se a responder que não lhe caberia qualquer opinião. Decidiram que precisavam desocupar o estado, e era tudo. Ali nunca que tinha de ter havido gente, foi o que disseram, no máximo ficava quem já estava lá desde sempre. Ele, na época, acatou, e reuniu suas tralhas e família para se irem embora rumo às bandas do nordeste, que para o sul não fazia para ele sentido, posto que humilhar-se assim dessa maneira como os outros já era um tanto de exagero.
Mas a pergunta sobre o que achava ou deixava de achar, muito menos seus sentimentos íntimos em estar ali depois de dez anos, não eram importantes, era o que insistia aos outros. Precisava concentrar-se no trabalho. Não era de hoje que queria fazer aquele filme, mas a burocracia é enjoada e as autorizações oficiais difíceis. Mas teve um contato. Aqui, para tudo, sempre é preciso ter um bom contato.
Andou pela área do largo, onde a mata agora crescia e tomava o lugar das ruas. Porém, curiosamente, estas ainda não diferiam tanto do que havia antes. Na verdade, os amontados de lixo eram bastante familiares, e o asfalto não tinha desaparecido em seu todo. Fotografou e filmou. O ator, então, começou a relatar que ali se encontrava o que fora um dos teatros mais bonitos do país, agora tomado pelo verde que cobria o rosa que pelo que diziam era e não era a cor original da edificação, mas isso era uma dúvida secundária no momento. Chegaram até a porta, que se encontrava escancarada, e puderam observar que lá dentro se amontoavam morcegos e que, lá no fundo, dois brilhos alertavam que muito provavelmente uma fera repousava em sossego mas que esse não era tão calmo assim, que na verdade ela estava pronta para o ataque caso fosse instada a isso. O fotógrafo, embora tivesse ao seu lado um caçador experiente, optou por recuar. Seria ridículo demais viajar de longe para vir aqui matar os bichos.
Repassou as filmagens rapidamente, e gostou do que viu. Pensou que ficariam muito bem se intercaladas com a fala do antigo senador, que defendeu com veemência a retirada da vida humana do lugar. Era isso ou o fim da floresta. Lembrou depois ele que foi aplaudido na onu por transformar uma parte tão grande da Amazônia em área puramente preservada. Mas, quando perguntado se garimpeiros e traficantes continuavam por ali, calou-se. Alguma vergonha muito oculta e impertinente o impediu de dizer o que queria. Isso era assunto para as forças armadas, foi o que retrucou.
Caminharam até a orla da cidade, e não puderam deixar de achar engraçado a forma que havia tomado o mirante depois de cedido. Realmente caiu, pensaram todos aos risos, e ficou agora meio que como uma obra brutalista. De cima dos blocos de concreto, sentaram-se, abriram uma garrafa de refrigerante e contemplaram o pôr do sol. O espetáculo, no entanto, durou pouco. Rapidamente, o céu foi sendo ocupado por uma novem escura e espessa, e começaram a sentir como se tivessem entrando em seus corpos mil flechas invisíveis. O fotógrafo registrou as imagens, e, tomado por uma sensação lúgubre, disse que não terminariam o documentário ou nem ao menos tomavam café no dia seguinte se permanecessem avançando. Estava na hora de partir.






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