Dialéticas do escritor
- segundaviablog
- 21 de abr. de 2025
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1
Toda escrita parte de uma experiência de si. Mas se o autor só pretende escrever sobre si mesmo, é melhor economizar papel e procurar um analista. Ninguém suporta conversar com um indivíduo que fala apenas dele próprio, e muito menos pagaria para ler algo somente sobre isso.
2
A antinomia de escrever, portanto, encontra-se em falar do que é seu de uma forma que faça sentido para os outros.
3
“ah, mas o que escrevi é apenas para minha satisfação”. Perfeito. Mas por que vem então nos importunar com suas palavras? Para obras dessa natureza nunca faltam gavetas.
4
Um filósofo certa vez disse: “em Manaus, para ser escritor, basta dizer que se é”, e isso é muito verdadeiro.
5
Claro, isso não tem a ver com uma obra ser boa ou ruim sob algum ponto de vista, e sim pela pretensão de que ela valha só porque é sua.
6
Portanto, você pode apresentar-se como escritor em lugares e ocasiões públicas, o que sem dúvida é um direito seu. Mas não reclame caso se perscrute a sério o que se quer dizer com isso.
7
O escritor não é uma identidade, mas um fazer. Porque ninguém o é imanentemente.
8
Para os que pretendem ser escritores profissionais e ainda assim artistas, os livros que vendem devem pagar os que não vendem e que são os que realmente se quer produzir. Uma alma pela outra é sempre uma troca justa.
9
Quem diz ignorar o leitor se esquece de que ele mesmo é um leitor de seus livros, com a única diferença de muitas vezes ser dotado de uma complacência infinita.
10
Somente o erro é criador, porque errar em literatura é falhar quanto ao que está posto. Não acredite em escritores de manuais. A palavra exata de Flaubert foi algo que ele encontrou sem nenhuma bula.
11
A dialética consiste em colocar tudo em contradição. Logo, também as palavras deste escrito.






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