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E NO CÉU, EU VI TECER EM FUMAÇA A ALMA DE UM RIO

  • Foto do escritor: segundaviablog
    segundaviablog
  • 10 de jun.
  • 3 min de leitura

Foto de Raphael Alves
Foto de Raphael Alves

Por Breno Lacerda


O escritor Victor Leandro, em seu recente livro, trocou os confetes festivos pelas cinzas. Enquanto a cidade espera ansiosamente pelos folguedos de junho, e o estado gasta milhões em propaganda para criar uma falsa sensação de tranquilidade e alegria, há uma realidade silenciosa e trágica escondida na densidade da floresta amazônica. Junto às águas doces dos rios, negro ou barrento, corre o sangue de um povo esquecido e violentado, esmaecido pela fumaça das queimadas. É esse universo que a novela Rio das Cinzas de Leandro ficcionaliza, construindo uma impoluta denúncia ao mirar o holofote nas mazelas da sociedade amazonense.


Desde que publicou Catedral dos mortos em 2022, a literatura de Victor Leandro ganhou novos ares estéticos. Quem pôde apreciar seus escritos iniciais logo se surpreenderá com Catedral. O narrador meditabundo, imerso em questões do ser e de aguda crítica social, abre espaço a um observador arguto, interessado nas contradições da cidade de Manaus, convertido na voz de uma consciência que ganha força e esperança nos seus períodos extensos. Inclua-se também Degredo, que trata da questão da imigração venezuelana na capital, a partir do olhar estrangeiro. Tais livros, somando-se à nova publicação, compõem um projeto literário na lavra artística do autor. Objetivo não expresso, mas perceptível pelas características narrativas e escopo temático: trazer à tona os problemas contemporâneos da cidade.


Em Rio das cinzas, Estevam retorna a Manaus depois de anos longe da cidade onde nasceu. Agora, formado e funcionário do governo federal, ele tem a missão de resgatar pessoas escravizadas e violentadas por um cartel de garimpeiros e madeireiros, que além de barbarizar homens, envenena os rios e desmata a floresta. Mas logo se descobre o conluio do cartel com o estado, a impor dificuldades instransponíveis ao trabalho pretendido. Da capital vai-se a um pequeno município próximo ao foco das denúncias, e aí que começa uma jornada eletrizante de intimidação, perseguição e suspense, artifícios literários novos no estilo do novelista.


A novela está distribuída em quatro partes e um epílogo. A capital, primeira parte, relata a chegada de Estavam a Manaus, porém o nome-título é ambíguo, representando ora o dinheiro ora a cidade, o leitor logo perceberá. A corrupção é explicita, a figura do empreiteiro não tem pudor em revelar o sistema viciado que age para beneficiar os poderosos e seus subalternos e sangrar a mata e o povo. Em Nakba, em clara alusão à limpeza étnica de árabes da palestina a partir de 1947 pelos sionistas, é narrado um cenário de guerra. A fumaça, a morte lenta e supliciante dos rios, a limpeza dos povos originários está construída dramaticamente nessa parte. Fim do rio sem fim traz a perseguição feroz do cartel a Estevam e sua companheira de missão: a mateira Noeme, que atravessam a mata sob uma chuva de balas. A narração suspende os detalhes, gerando emoção e incerteza acerca da condição das personagens. A Floresta faz o leitor vislumbrar a situação trágica da mata, dos animais, dos humanos mortos pelo veneno do garimpo e o Rio em cinzas, semimorto. O epílogo suscita uma melancolia que em vez de deprimir, desperta o leitor para o mundo.


E foi assim, que no céu literário das palavras de Victor Leandro, eu vi tecer a alma de um rio em fumaça. Foi assim que guardei os confetes e joguei cinzas no ar. Rio das cinzas é sobre a vida trágica de indígenas, ribeirinhos, interioranos, que tem as águas do rio como fonte de sustento e a veem esvair-se, é um narrativa-denúncia, sem deixar de ser arte literária, sendo por essas razões uma das obras mais importantes da história da literatura produzida no Amazonas.

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