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Escrever em Manaus

  • Foto do escritor: segundaviablog
    segundaviablog
  • 11 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura



Ser escritor numa cidade hostil, enfeiada e trágica é inevitavelmente difícil, mas também traz benefícios. É deles que falaremos aqui. 

 

O primeiro, sem dúvida, consiste justamente no fato de estamos num lugar hostil, enfeiado e trágico. A literatura, para ter densidade, não pode ser um painel colorido do Romero Britto, e sim um mergulho nas águas profundas e escuras do anseio e do desamparo, ao qual damos configurações estéticas. Logo, existe matéria de sobra a ser explorada. 

 

Sim, nossos escritores famosos (sic) continuam a falar da floresta, do belo e de temas nostálgicos e também líricos. Contudo, estão todos acorrentados na academia e no largo de São Sebastião. Assim, é simples limitar o alcance de sua influência. 

 

Aliás, falando em influência e constrangimentos, necessário atestar que nenhum autor é tão livre quanto o de Manaus. Ele pode falar sobre o que quiser, pois ninguém se importa. Pode atacar quantas figuras públicas ridículas forem, e ninguém nem tomará conhecimento disso. Não existe pecado literário ao centro do Equador. 

 

A fantasia do escritor recluso é para nós igualmente uma imanência. Não há quem nos perturbe. Somos todos Bartlebys compulsórios quando o assunto é expor-se ao mundo literário. Salinger só foi infeliz porque nasceu no lugar errado. 

 

Mas, preciso admitir, para quem deseja os holofotes, a única alternativa é assumir a síndrome do filho pródigo. Ir a um lugar distante sudestino e lá prosperar, para então voltar ao porto de lenha e disseminar sua glória. Mas aí o problema já é seu. A rigor, escrita e fama são dois termos que sequer chegam perto da harmonia. 

 

Uma cidade pedagógica sim, que pisa impiedosamente em nossos sonhos ingênuos de grandeza, deixando intacto somente o que ela não pode quebrar, a indestrutível força da palavra autêntica. 

 

Mas há impedimentos materiais, seguramente. O ônibus que demora, os trabalhos precários, as incertezas, a impossibilidade de andar na rua à meia-noite, a chuva forte que destrói os móveis, a espoliação social, os políticos nefastos, a bizarrice grosseira dos inimigos da arte, tudo isso mói e deixa muitas vezes fisicamente impedidos os indivíduos de ligar a máquina e pôr uma frase para frente. 

 

É a dialética da matéria que se amontoa a ponto de quase nos fazer sumir no caos de sua magnitude, como os detritos acumulados em nossos pútridos aterros. 

 

10 

Uma meia hora por noite, é o máximo que lhe resta. Mas é aí então que se encontra o húmus da escrita, seu desígnio, sua trágica e criadora festa. 

 
 
 

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