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Filosofias amazônidas do trabalho

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    segundaviablog
  • 29 de jun.
  • 8 min de leitura

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Introdução - proposta de uma filosofia do trabalho a partir da praxis amazônida 


O pensamento e a filosofia - não é negável que há, na escolha de determinados termos, uma carga ideológica importante, capaz de oferecer um sentido social bastante contundente, e que conduz de algum modo a hierarquias e relações de poder estabelecidas. Assim é com a palavra filosofia. Quem faz uso dela recorre necessariamente a uma certa tradição que a consagra como a fina flor das elaborações do intelecto, de maneira que tornar algo uma filosofia é um sinal de elevada distinção, bem como classificar manifestações como não filosóficas implica diretamente relegá-las a um tipo de manifestação inferior, desprovida do mais alto rigor teórico. 


Contudo, mesmo considerando tais circunstâncias, por vezes é necessário que se cristalize um vocábulo nessas determinações a fim de torná-lo operativo enquanto forma de conceito e categorização, sem o que não se consegue figurar uma discussão profícua acerca do desenvolvimento do pensar sobre uma certa coisa, de maneira que precisamos fixar uma palavra a um claro problema e proposição, sob pena dessa não se prestar ao trato de nenhum debate a respeito da realidade. 


Desse modo, consideraremos aqui a filosofia em uma acepção específica, qual seja, uma forma de produzir ideias fundada nos princípios da razão, da explicação da natureza pela natureza e da logicidade, e que se desenvolveu primeiramente entre os gregos, tendo depois espalhado-se pelo Ocidente e Oriente, num movimento mais ou menos ortodoxo quanto aos seus princípios. A outros modelos de constituições de formulações mentais, chamaremos de pensamento, palavra cujo sentido aqui é o de apenas não possuir sua matriz de origem na trajetória articulada pelos antigos gregos. Ao fazer essa escolha, visamos tão somente marcar uma diferenciação didática, em nada hierarquizada, que nos será útil para definirmos melhor nosso objeto de atenção e ponto a que pretendemos atingir, qual seja, o de elucidar a transmutação de uma compreensão do trabalho não fundada nos parâmetros filosóficos, mas que se pretende aqui colocar em seus termos, a fim de cotejá-la com conceituações que derivam da dinâmica operativa do mundo hegemonista colonizador do capital, que dobrou as diversas culturas a seu modo de pensar específico. 


Isso posto, podemos dizer então que proliferaram no território hoje denominado Amazonas variadas organizações de pensamento independentes da tradição filosófica e que vieram das práticas dos sujeitos aqui situados, para enfim configurarem-se em concepções daquilo que conhecemos como trabalho. Tais concepções, firmadas e aplicadas durante séculos, podem ser transpostas para o edifício lógico da filosofia e assumir seus moldes de composição, no que se revelam os pontos que permitem ratificar uma noção universalista de trabalho, assegurando a validade genérica do conceito, assim como também validam as feições particulares assumidas por este nas condições concretas em que se realiza, momento em que surgem choques e confrontos que darão direcionamentos peculiares as suas problemáticas, de tal maneira que nos permitem acentuar o surgimento de visões próprias de trabalho, com cuja análise aprendemos a vislumbrar nuances e perspectivas antes ignoradas de sua efetiva aparição no mundo. 


Dessa forma, por meio do estudo aqui proposto, pensamos não somente contribuir para pensar as determinações singulares do trabalho no Amazonas, como também alargar o horizonte de discussão acerca do trabalho em sua compreensão abrangente, além de refletir de maneira mais aguda os impactos deletérios da emergência do capitalismo predatório em nossa região, situada naquele que se observa constantemente como sendo o Sul simbólico do Sul Global. 

 

O que é trabalho 


Tomaremos aqui o trabalho no sentido desenvolvido por Marx, qual seja, o de toda a atividade modificadora do real, e que externaliza a subjetividade humana em objetos materialmente discerníveis. A partir dessa acepção inicial, verificaremos os desdobramentos no contexto específico abordado, ou seja, dentro da realidade amazônida em seu percurso histórico. 


Importante destacar aqui que partimos de uma ontologia mais fundamental do trabalho, anterior principalmente à forma dominante em que este se apresenta no modo de produção capitalista, e que se identifica tão somente com as práticas dedicadas à valorização do valor. Embora óbvio, sempre é relevante lembrar que o trabalho antecede a sociedade do capital, e que seu direcionamento para relações exploratórias e de lucro forma uma dinâmica delineada por certas marchas históricas, mas que não apagam de nenhum modo a força prioritária do trabalho enquanto agente e movente do sujeito humano em sua jornada de autodesenvolvimento e produção. 

 

O trabalho antes da colonização - um vitalismo equilibrista 

Primeiramente, antes mesmo de entrar nas indagações próprias sobre o trabalho dos povos originários do Amazonas, faz-se necessário desmistificar a visão consolidada de que estes eram fundamentalmente refratários à ideia de trabalho. Tal perspectiva ganha solidez somente quando consideramos o trabalho numa determinação típica, ou seja, mediante os traços característicos da sociedade europeia do período moderno e contemporâneo. Fora disso, são bastante evidentes os elos que vinculam a práxis dos indivíduos amazônidas às postulações iniciais que caracterizam o trabalho num sentido geral, e que, por óbvio, irá ganhar contornos distintos dentro da dinâmica das sociedades indígenas. 


A hipótese de que alguma sociedade humana sobreviva sem trabalho, é, por si só, desprovida de sentido. Podemos imaginar com certeza uma comunidade em que apenas alguns trabalhem, como cada vez é mais a capitalista, mas nunca uma em que não haja ninguém executando trabalho, ou a vida se extinguira nela muito rapidamente. Logo, a vida humana centrada no trabalho é um dado ubíquo e inerente, e o que ocorre com os indivíduos situados no Amazonas é que estes, assim como diversos outros sujeitos em localidades diferenciadas, têm no trabalho um ponto de atuação que se integra de modo diferenciado ao todo de suas realizações. De qualquer modo, a fim de demonstrar isso com maior acuidade, passemos ao exame das evidências. 


Nas sociedades indígenas pré-colonialismo, o trabalho dispunha de caracteres que o permitiam enquadrar-se na concepção geral trazida por Marx, porém não naquela que se desenvolveu de maneira peculiar no continente europeu. Em primeiro lugar, vale destacar que havia uma ampla compreensão totalizante das atividades elaboradas pelos indivíduos, no que se observa a exteriorização de um movimento planejado mentalmente, e que depois ganha contornos definidos quando realizado. Os caçadores, por exemplo, não entravam na mata em busca de alimento sem antes ter a clareza do que e como iriam procurar suas presas, bem como os artesãos não geravam objetos sem antes pensá-los tanto quanto a sua materialidade quanto a seus fins, traço em que se verifica o trabalho instituído não apenas como uma competência, mas também como resultado de uma ação intelectual que se concretiza e modifica com isso a natureza ao redor. 


Importante salientar ainda nesse contexto o lugar central que o trabalho ocupa na vida social dos indígenas. Desde cedo, estes participam não só do aprendizado de suas ocupações, como também são ritualmente predestinados a assumir certas tarefas junto ao grupo, apontando desse modo o trabalho como um item definidor do ser e do lugar social do sujeito dentro da coletividade em que está inserido. 


A divisão do trabalho também se fazia presente entre os indígenas, obedecendo principalmente aos critérios de gênero e idade. No primeiro ponto, o esforço físico dispendido para as tarefas era o fator determinante, fazendo com que a caça, a pesca e o corte de madeira, por exemplo, ficassem a cargo dos homens, ficando as mulheres encarregadas sobretudo dos afazeres domésticos e da agricultura. As crianças normalmente participavam de um processo gradual de inserção na dinâmica do trabalho, em que iam executando progressivamente as atividades mais simples até chegar às mais complexas, marcando com isso o seu aprendizado e inclusão na comunidade. 


Um outro aspecto importante a ser destacado diz respeito à meritocracia dentro das comunidades. Os indivíduos que possuíam maior habilidade principalmente na caça usufruíam de prestígio e destaque junto ao grupo, enquanto os panemas, ou seja, aqueles que não se mostravam bons caçadores, eram tomados como pessoas que se encontravam em situações de insucesso, seja ele permanente ou momentâneo. Certamente, estes últimos não sofriam nenhum tipo de sanção maior quanto a seu acesso aos meios de subsistência, porém isso não impedia que houvesse uma determinada hierarquização entre os grandes caçadores e aqueles que não se encontravam no mesmo patamar. 


As técnicas de trabalho desenvolvidas eram bastante sofisticadas e se adequavam às demandas da população, permitindo que esta praticasse o extrativismo e ao mesmo tempo conservasse os recursos como perenemente disponíveis. Na pesca, por exemplo, era fundamental reunir práticas que não causassem grande agitação nas águas e entre os peixes, pois com certeza os espantaria e tornaria o local inapropriado para atividades posteriores. Desse modo, alinhar o método às características do meio natural era uma tarefa de primeira ordem, que os pescadores planejavam e desempenhavam com prontidão. Tais aspectos podem ser identificados também na agricultura, em que o solo era manipulado e alterado, porém não a ponto de torná-lo infértil. 


Considerando essas práticas mais gerais, percebe-se de pronto que o trabalho ocupa uma posição indiscutivelmente central na dinâmica de vida dos povos amazônidas. Ele não só, como não poderia deixar de ser, garante as condições de reprodução da vida na comunidade, como também é reconhecido e estabelece-se como motor de sua existência social e cultural. Os indivíduos pertencentes a cada grupo têm seus percursos pautados pelas atividades que desempenham nas divisões laborais. De igual maneira, os ritos e celebrações são ordenados tendo os trabalhos desempenhados como referência e elemento motivador, sem o que faltariam componentes significativos. 


Com isso, a compreensão de trabalho que se depreende é deste como sendo uma força vital e imprescindível, que não pode ser subtraída da comunidade, sob pena de retirar a substância motora de todos os seus membros. Nenhum indivíduo que pertence a ele está fora do sistema do trabalho, e nenhuma prática, material ou imaterial, encontra-se apartada do trabalho em suas ramificações e sentido. O trabalho, portanto, compõe-se ali como sinônimo de vida. 


Os julgamentos exógenos que colocam as sociedades indígenas pré-colonização como indolentes e opostas à lógica do trabalho, considerando-se o exame aqui feito, provavelmente derivam de dois equívocos, sendo o primeiro deles um deliberado preconceito e eurocentrismo, já bastante debatido em diversas argumentações contra-hegemônicas. O segundo, por sua vez, tem raízes mais complexas, e encontra-se assentado na maneira limitada como é observado o regime de acumulação indígena, que se orienta por bases bem diversas daquele dos colonizadores.

 

O Amazonas é um território abundante em recursos naturais. Praticamente tudo que era necessário ao sustento dos moradores originários da região estava disponível na floresta, de maneira que era necessário apenas manejá-la adequadamente para que não se passasse por nenhuma escassez. Dessa maneira, os indígenas não cultivavam preocupações em extrair o máximo de produtos da terra e da selva, posto que tomavam como remota a possibilidade de que estes desaparecessem, a menos que praticassem um consumo exagerado ou, como dito acima, baseado em técnicas inapropriadas para a sua extração e que viessem a esterilizar a mata e os rios. O equilíbrio, por conseguinte, funcionava ali como palavra de ordem, e o regime de acumulação, diferentemente de em outros lugares, consistia em obter de maneira parcimoniosa aquilo de que se precisava. Em termos mais diretos, era a natureza que deveria acumular, e não o ser humano, que assim se desincumbia de uma tarefa dispendiosa e deletéria, tanto no desgaste de força humana como também da fertilidade do meio ambiente. 


Devido a esse sistema, provavelmente também os trabalhos exagerados e forçados eram rejeitados com tanta veemência. Mesmo quando obtinham vantagens em negociações de troca, tudo indica que, quando suas necessidades estavam satisfeitas, isso era deliberadamente interrompido. Simplesmente, não fazia sentido trabalhar para ter mais do que se precisa, e as preocupações com o excesso ou o amanhã eram em geral uma excentricidade contraintuitiva com a realidade a sua volta. 


Desse modo, foi somente com a violência exterminatória que o vitalismo equilibrista dos indígenas foi deposto e conheceu seu processo de declínio. Ainda assim, o ethos trabalhista da região continuou a sofrer influência de sua organização originária, a qual passou a se fazer menos presente apenas quando um inédito ciclo econômico, impulsionado pela economia gomífera, instalou-se no Amazonas, inaugurando uma nova fase filosófica das concepções de trabalho em seu território. 

 
 
 

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