Filosofias amazônidas do trabalho 2
- segundaviablog
- 30 de jun.
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Ciclo da borracha – o encontro com a alienação
A ascensão da economia gomífera provocou mudanças radicais nas relações de trabalho estabelecidas no território amazônida. Em termos mais concretos, houve um profundo movimento de substituição da mão de obra indígena - resistente, e para a qual não fazia sentido trabalhar sob o novo regime imposto – por migrantes trazidos principalmente do Nordeste do país e que fugiam da grande seca, alterando sobremaneira a dinâmica laboral estabelecida na região. Tudo isso, claro, para atender às necessidades produtivas agora ilimitadas pela lógica de valorização do valor que demandava a maior retirada possível do látex da selva ao menor custo aceitável, a fim de servir à emergente indústria automobilística e também ao acúmulo imparável dos proprietários capitalistas.
Por óbvio, os recém-chegados ao Amazonas eram imediatamente instalados num esquema de exploração extremada, em que estes não só forneciam sua força de trabalho a valores módicos, como também dependiam dos patrões para adquirir os meios necessários à subsistência, quase sempre por valores superfaturados. Desse modo, o trabalho pago se convertia em dívida que depois se tornava impagável, abrindo espaço para a geração de práticas servis e análogas à escravidão. Isso tudo sob as condições inóspitas da floresta e nada amenizada pelos ditos benefícios civilizacionais, os quais eram reservados somente aos grupos abastados, compondo um quadro em que o sistema de produção capitalista revela sua face mais perversa e deletéria, ou melhor, quando mostra sua verdadeira natureza quando não sujeito ao contraditório de uma classe trabalhadora com meios de resistência.
Tal modelo não demorou a espalhar-se para outras modalidades de atividade econômica, sofrendo algumas óbvias adaptações, porém mantendo no essencial a característica de exploração máxima como custo de vida para o trabalhador. A estrutura comercial e logística situada principalmente na capital do estado, Manaus, favoreceu-se substancialmente desse estatuto, e promoveu uma ampla expansão, a qual no entanto não ocorreu sem que houvesse resistência. A concentração urbana permitia uma melhor organização dos trabalhadores, de modo que não foram infrequentes os registros de greves e revoltas por conta das corrosivas condições de trabalho, mas que infelizmente encontraram seu limite abaixo da capacidade de repressão das forças oficiais e não impediram o desenvolvimento das práticas exploratórias em suas linhas mais aviltantes.
Desse modo, por meio da conjuntura que se desenhou no período, os trabalhadores amazônidas viram espraiar-se em seu território o trabalho alienado. Por meio de uma crescente expropriação típica das concentrações capitalistas, eles tiveram restrito o acesso a terra, bem como, no território urbano, foram compelidos a oferecer sua força de trabalho e não mais apropriar-se daquilo que produziam, cujo rico excedente era conferido ao patrão e lhes deixava apartados das realizações de seu labor diário, numa configuração que tinha tanto de destrutiva quanto de impactante para quem vivia habituado a uma conexão direta e imediata com aquilo que era gerado por seu empenho.
Com isso, na compreensão geral dos indivíduos que ali estavam, o trabalho se apresentava como inexoravelmente modificado em seus desígnios primevos, perdendo seu caráter vital, e passando a ser não mais do que um tributo de subsistência. Ele começa a ser considerado como um esforço duro e indispensável pelo preço de estar simplesmente vivendo, ao que se deve pagar com resignação. Diferente do período cristão, em que o trabalho dignificava ou tinha peso expiatório, esse aqui não tem nada de redentor. É o mero imposto do existir, devendo ser quitado diligentemente enquanto se permanece no mundo. Os mais ricos também partilhavam dessa visão, porém diziam que graças a uma dedicação única e capacidade suprema, puderam obter algum saldo de seu empenho. Obviamente, ninguém estava impedido de trilhar pelo mesmo caminho, e, se não o fizesse, é porque certamente faltava disposição ou talento para atingir tal feito.
O chamado período áureo da borracha no Amazonas durou pouco. Já no início do século XX, restava praticamente nada a acumular desse ciclo econômico vigoroso para as elites. Contudo, seus efeitos sobre a região foram substantivos e duradouros, posto que a prepararam para receber de maneira ampla todo e qualquer empreendimento da ordem expansiva do capital, seja ele de caráter extrativista ou fabril, com mão de obra farta e domesticada, apta a integrar esse novo mundo que se descortinava e tendo o Norte do país como um dos lugares mais aptos para as práticas predatórias de sujeitos humanos pelo trabalho, sugados em suas forças até o esvair de seus limites, e que praticamente nada interessavam como público consumidor, não tendo, portanto, função adicional para além daquela a que se destinavam precipuamente, motivo este causador de grande satisfação, uma vez que polpava os proprietários e governantes de oferecer vultosas contrapartidas, ainda que tivessem de conter alguns protestos aqui e ali. No cômputo de perdas e ganhos, e todos sabemos que isso é o que realmente interessa, o lucro final era extremamente positivo.






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