Filosofias amazônidas do trabalho 3
- segundaviablog
- 1 de jul.
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Período Zona Franca – a miragem industrial
Criada em 1967, a Zona Franca de Manaus previa a criação de três polos: indústria, comércio e agropecuária. Dos três, somente o primeiro se mantém como em curso. Já o segundo foi liquidado por força de mudanças da economia nacional nos anos de 1980 e 1990, enquanto que o terceiro não se estabeleceu de maneira organizada, sendo na verdade apenas um subproduto de iniciativas pontuais sem composição nem projeto orgânicos.
Tratava-se de um projeto que vinha na esteira das concepções elaboradas pela ditadura militar no Brasil, que previam, de maneira interligada, uma alavancada da indústria nacional, uma educação tecnicista e formadora de quadros para o mundo do trabalho, e uma maior ocupação e integração territorial, o que implicava um povoamento maior das regiões do Norte do país, justificando assim instalar um polo industrial na capital do Amazonas.
De fato, do ponto de vista dos objetivos traçados dentro de uma perspectiva liberal, não se pode dizer que o projeto falhou. Sem dúvida, houve um grande acúmulo populacional no Norte a partir desse período. Também as indústrias, encontrando mão de obra farta e consequentemente barata, além dos incentivos fiscais legalmente previstos, não tiveram dificuldade em potencializar seus lucros. A administração estatal, por sua vez, também se beneficiou, passando a recolher volumosos tributos, de maneira que o cenário gerado não fugia daquilo que estava delineado inicialmente por seus idealizadores.
Isso, contudo, não quer dizer que tenha sido algo positivo no sentido social. Uma vez alcançadas as metas, os prejuízos à coletividade foram evidentes. Em Manaus, foram-se avolumando grandes bolsões de pobreza, acentuados por uma urbanização não planejada e que carecia da oferta de serviços básicos. Os interiores, esvaziados, ficaram à mercê da própria sorte e vulneráveis ao extrativismo ilegal e ao crime organizado. Culturalmente, com o apagamento progressivo das marcas dos povos originários, fincou-se uma indústria cultural que ampliava suas áreas de consumo. Em termos gerais, pode-se dizer que a Zona Franca trouxe consigo todas as mazelas do progresso, porém muito pouco dos seus benefícios, que eram o que previam as promessas de seus entusiastas mais inveterados.
De todo modo, no que diz respeito ao trabalho, houve mudanças expressivas. As antigas formas de subordinação foram substituídas pela lógica industrial, de verniz fordista, e que gradualmente ocupou a totalidade do mundo do trabalho em outros campos de atividade econômica na região. Com isso, ideias como profissionalização, produtividade, resultados, metas, foram sendo introduzidas no glossário dos trabalhadores, que as assimilaram tanto no campo das suas práticas laborais quanto também as receberam de maneira massificada nos bancos escolares e formativos, que vendiam tais noções como sinais magníficos do progresso que enfim os contemplava.
Com isso, a concepção de trabalho que passou a vigorar foi a deste enquanto modernização, sinal inconfundível de avanço civilizacional e tecnológico, além de condicionante básico de prosperidade social. O novo mundo havia enfim chegado, e, se quiséssemos de fato nos beneficiar dele, teríamos que nos adaptar o quanto antes à nova dinâmica produtiva, pautada numa economia industrial racionalizada e fixada em modelos elevados de qualidade e resultados.
Contudo, para depois das aparências, essas imagens desapareciam, e o que restava era um misto pernicioso de subindustrialização e exploração da pobreza. Se de um lado as empresas aqui instaladas tinham preocupações parcas ou nulas quanto a desenvolvimento regional, do outro, a mão de obra farta, vulnerável e barata, somada aos benefícios fiscais, trouxeram um cenário valioso de extração de mais-valia, sem que nenhuma contrapartida maior precisasse ser oferecida, além dos empregos precariamente gerados e sem maiores perspectivas.
Os profissionais que ocupavam os altos postos na fábrica foram trazidos de fora. A força de trabalho local, restritamente formada no ensino tecnicista então implantado, também fora tolhida em seu apuro crítico, trazendo como consequência não só a impossibilidade de avanços tecnológicos e produtivos próprios, o que geraria sua autonomização frente ao capital externo, como também inviabilizou a proliferação de uma consciência classista, de modo que até hoje o Amazonas não dispõe de uma classe operária fortemente organizada contra o poder patronal, ocasionando com isso um cenário de melhor dos mundos para o empregador e o pior deles para os trabalhadores, sem que estes últimos sequer saibam disso.
A partir dos anos 1990, os ataques internos, a fuga de empresas e a dissolvição da zona de livre comércio enfraqueceram em muito a visão do polo industrial como uma grande panaceia modernizadora. Porém, seu apogeu já tinha cumprido satisfatoriamente a tarefa de preparar o terreno para a entrada profunda da economia liberal, cada vez mais carente de novos territórios para garantir sua sobrevivência. Também, no plano ideológico, os sonhos de modernidade e desenvolvimento impregnaram no imaginário coletivo, de tal maneira que até hoje qualquer iniciativa que evoca esses nomes é automática e amplamente aceita, ainda que sua realização se configure no maior pesadelo para os trabalhadores. Assim, quaisquer que tenham sido os prejuízos humanos, ambientais econômicos causados posteriormente, o objetivo traçado, sob a ótica do capitalismo liberal, estava concluído.






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