Filosofias amazônidas do trabalho 4
- segundaviablog
- 2 de jul.
- 3 min de leitura

O trabalho amazônida na contemporaneidade suas perspectivas - à espera de uma síntese
Não seria num um pouco razoável trazermos uma concepção determinada de trabalho hoje para um ciclo ainda em andamento. Assim, nesta seção de encerramento de nosso breve ensaio, vamos nos limitar no máximo a situar algumas tendências ascendentes do cenário trabalhista local.
Por certo, os princípios da nova fase ultraliberal de precarização do trabalho chegaram com vigor em terras amazonenses, trazendo uma orientação que potencializa fortemente a extração de mais-valia por meio de uma intensa retirada de direitos e garantias de seguridade social que antes eram conferidas ao operariado. Desde as reformas promovidas por Michel Temer, os trabalhadores veem extinguir-se as possibilidades de empregos melhor remunerados e com proteções que antes eram consideradas irredutíveis, já que tudo agora depende muito mais de supostas negociações diretas com os patrões que de leis reguladoras, o que, somando-se a um cenário de deliberado enfraquecimento dos sindicatos, ocasionou as mais nocivas assimetrias nas disputas entre os funcionários e seus empregadores.
No distrito industrial, as mudanças na lei de terceirização produziram as mais estranhas anomalias e degradações laborais. O operário está na fábrica, mas não pertence ao quadro da empresa. Também há indivíduos desempenhando as mesmas funções no mesmo lugar, porém com salários e condições diferentes. O investimento em qualificação profissional chegou ao nível do completamente nulo, o que obviamente afeta a produção, mas não a ponto de desequilibrar a balança de lucros e perdas para o segundo lado e impulsionar outras providências. A desorganização é prejudicial, sem dúvida. Contudo, o nível de exploração é tão grande que esta ainda vale a pena.
Por outro lado, vimos proliferar o capitalismo de plataforma e os chamados serviços uberizados, que extinguem – ou ao menos procuram por isso – a figura formal do chefe, transformando os empregados em prestadores de serviço, ou, na linguagem camuflada dos grandes empresários, em parceiros. Agora, além de não precisar mais arcar com despesas trabalhistas, os proprietários sequer necessitam disponibilizar os instrumentos de trabalho àqueles que executam os serviços que as empresas ofertam. O carro, a moto, ou que quer que seja necessário fica por conta do operário, agora chamado também de microempreendedor individual, e que deve daí por diante administrar todo o ônus por seu ofício como se fosse uma firma da qual é o único dono.
Curiosamente, ou nem tanto, tais falácias, atreladas a um discurso liberal, conservador e reacionário mais amplo, foram recebidas com entusiasmo pela classe recém-chegada ao mundo do trabalho. De certa maneira, esta inicialmente vislumbrou, ainda que inconscientemente, uma possibilidade de retorno parcial ao vitalismo equilibristas de séculos antes, uma vez que poderiam em tese definir o quanto de seu dia seria dedicado ao trabalho, podendo intercalar longos períodos de atuação com temporadas generosas de descanso, e tendo assegurado depois o retorno às funções laborais, isso quando não se quisesse de fato tornar-se rico ou obter no mínimo patamares sociais mais elevados com as aberturas dadas a seus empreendimentos.
Porém, muito rapidamente, esse sonho se desfez. Já nos dias de hoje, está muito claro aos uberizados que os patrões, diferentemente da natureza, acumulam a riqueza toda para si, e que quem não aceita ser explorado é simplesmente banido do negócio. Os meios de trabalho, já desgastados, começaram a se revelar um peso insustentável, assim como as necessidades econômicas crescentes que passaram a demandar jornadas cada vez mais longas, que, quando interrompidas por inevitáveis questões de saúde e afins, ocasionam penosas e prolongadas privações.
Os explorados, por sua vez, despertaram de seu sono, e começaram a organizar seus protestos. Contudo, o processo de organização enfrenta barreiras altamente dificultosas, seja pelos enredamentos estratégicos do capital, seja pelas próprias divergências internas ocasionadas por obnubilamentos ideológicos que embotam o horizonte da luta, fortalecendo as instituições operadoras da exploração.
Mas tal não significa que a última palavra foi dada, tanto conceitual como socialmente. Para qualquer consequência que se aponte, um diagnóstico parece bastante precoce. Os dados continuam girando no ar, e cabe aguardar – ou agir – para que se tenha estruturada a síntese do processo. De todo modo, teremos diante de nós para o trabalho um outro conceito, muito próprio e muito nosso, o qual todavia ao mesmo tempo não se exclui do plano mundial da luta dos trabalhadores.






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