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Imago mundi

  • Foto do escritor: segundaviablog
    segundaviablog
  • 25 de abr.
  • 2 min de leitura


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Imagine o seguinte sonho:


Você acorda e tudo que encontra são comércios e igrejas. Não há mais teatros, bibliotecas, livrarias e nem mesmo casas de dança. Somente praças de alimentação que se estendem e se emendam com supermercados que depois fecham e cedem lugar a grandes galpões de cultos, cuja denominação de preferência agora é church, porque o mundo precisa falar a linguagem universal. Entre as pessoas, tudo que circula nos celulares são vídeos que ensinam a ter fé ou a ganhar a vida por si mesmo, pois afinal o sucesso depende do tamanho da vontade de vencer e de pedir. 


Os prédios das administrações públicas tornaram-se, por sua vez, supérfluos, de modo que os templos passaram a ser os escritórios oficiais, uma vez que os líderes religiosos são os mesmos que governam as cidades. Os hospitais públicos ainda existem, porém encontram-se tão abarrotados de doentes que a única alternativa é morrer na rua ou pagar por um plano de saúde ruim, que arranca seus últimos centavos em troca de quase nada, mas pelo menos permite que morra com uma dose de anestesia. 


Já do alto, quatro ou cinco oligarcas falam da divisão da riqueza dos países como se fossem seus feudos, seus territórios exclusivos, formulando uma espécie de novo tratado de Tordesilhas. Impotentes, os grandes líderes mundiais apenas concordam, ou então tentam desesperadamente fazer parte desse seleto clube. 


A fome, a exploração e a miséria continuam a crescer, e os velhos não possuem mais aposentadoria, posto que trabalharam a vida inteira como autônomos sem direito à previdência, ou, como eles antes falavam, na função de microempreendedores individuais, a mola propulsora do trabalho das nações. 


Por fim, você está em Manaus, os rios ora secam e ora enchem, e a única constante é a mata que não para de diminuir. Os buracos das ruas crescem até famílias morarem dentro deles, e você agora é bem mais magro por andar a pé devido ao preço impraticável da passagem do transporte público. 


Sim, imagine esse mundo, mas não muito, pois pode ter em excesso pensamentos intrusivos. 


Depois, acenda uma vela, ou não, por ainda estar aqui. 

 
 
 

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