Juventude
- segundaviablog
- 1 de mai.
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Fazia quase um ano que não se falavam, então era de se prever que não faltassem assuntos. Miguel, o que ficara em Manaus, informou o amigo de que haviam dito que a ponte corria risco de cair. Resolveram assim fazer uma visita ao monumento débil, olhar a cratera em torno da coluna gigante, ao que constataram frustradamente que não se encontrava ali nenhum sinal de declínio. Subiram então ao parapeito, e lá fumaram e beberam como faziam sempre em ocasiões reflexivas, quando estavam longe das meninas e dos colegas mais paredeiros, podendo ser dessa forma aquilo que imaginavam ser, dois artistas mágicos e revoltos enclausurados nas celas aquáticas da cidade flutuante.
-então, São Paulo?
-uma merda, Antonio respondeu.
-você já tinha me avisado.
Antonio de fato tinha dito algo a respeito, porém não aceitava que não tivesse nenhuma novidade.
-os escritores de lá são muito ruins, bem piores do que nós aqui. A diferença é que lá dá pra publicar mais fácil, só isso. Lembra que falei, que ninguém que a gente lia era de SP? Exato, porque eles não sabem de nada. São apenas uns classe média desocupados que emprestam dinheiro dos pais pra abrirem editoras. Daí ficam fazendo pose. Como lá é frio, dá pra botar umas roupas bacanas e fazer muita pose.
-você falou. Até por isso que não fui.
-vamos fazer uma outra arte por aqui, mano. Bem melhor que essas porcarias de lá.
-com certeza.
Miguel tragou o cigarro e contou algumas ideias que tinha. Um conto sobre o Eduardo Ribeiro que agora estava fechado, um outro poema épico contando a história da própria família. Ia se chamar Pauperipopeia. Antonio gostou. Os dois trocaram opiniões sobre a composição da narrativa, até que a certa altura puseram-se mais calados, sem ânimo para tantas palavras, cada um remoendo suas próprias esperanças e desejos.
-e Julia?
-esquece.
-soube que o Roni se matou.
-aquilo sempre foi doido. Sorte dele. Está trabalhando?
-pego a moto emprestada do meu tio às vezes. Mas não muito, senão não tenho tempo pra escrever.
A cerveja começou a fazer efeito, de modo que foram se tornando mais expansivos. Entraram num estado de êxtase risonho, fazendo piada de cada sujeito que passava por ali pela ponte ou cruzava as imediações. Duas jovens andavam de moto, e mesmo por trás do capacete supuseram que seriam bonitas. Não disseram nada, apenas se olharam e acenaram um para o outro, voltando a seguir ao exercício de falar mal da humanidade por inteiro.
A viatura estacionou. Os policiais se aproximaram e em tom baixo perguntaram por que ambos estavam ali. Eles riram e juravam que não pretendiam se jogar não, além de não consumir nada de ilícito. Os guardas sugeriram que não ficassem por lá muito tempo, pois era um tanto perigoso, e nessa hora foi que os quatro acabaram rindo. A viatura partiu sem ligar as sirenes.
-pelo menos não fomos revistados dessa vez.
-é o pessoal que entrou agora de concurso. São mais tranquilos mesmo.
A manhã chegava e dali a pouco correria pela avenida o primeiro ônibus. Conversaram mais umas palavras e antes de partir combinaram de que a próxima viagem a São Paulo seria juntos. É uma cidade de muito boas oportunidades para escritores, se pensarmos mais cuidadosamente. No mais, desconfiavam dos artistas completamente vagabundos, e não faria mal que tentassem combinar por um tempo sua arte e um bom emprego no lugar em que mais jorrava dinheiro em todo país.






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