O romance contemporâneo do burguês decadente
- segundaviablog
- 6 de ago.
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Vamos dizer que essa história toda pode ter começado com Albert Camus em O estrangeiro, mas ali tinha algo de denúncia, de revolta e de verdade, embora já dissesse que ao homem comum sob o capital apenas restava conformar-se em ser medíocre.
Depois veio Philip Roth, a debater-se com saídas eróticas e desesperos sexuais atravessados por crises de incapacidade de ação e pelo delírio patológico desses escapes que mais evidenciavam a impotência e a esterilidade de qualquer fazer num mundo regido pela ordem do declínio.
Mais adiante, a resignação. Apenas a mesma história do sujeito que vive só e cansado consigo mesmo, trancado no apartamento enquanto ouve lá fora o som da banda que toca. Sabe que tem algo de muito errado no mundo, porém não pode fazer nada. O emprego tanto faz, os relacionamentos são monótonos e aí vem a desculpa do diário que justifica a emergência da obra ficcional. O sentido da literatura pretensamente se encontra em repercutir a poética da depressão.
Talvez o Homem lento de Coetzee tenha sido o único a indicar os problemas reais desse modo de existência, mas foi um ponto isolado fora da curva. No volume, o que ganhou foi o fetiche da passividade travestida de elegante decadência. Por esse motivo, mesmo diante de um planeta assolado pelo vírus, pudemos ter narrativas como O céu implacável, de Carrascoza.
Vence, então, a ideologia mortificadora da vida burguesa, defensora do indivíduo afastado, do autofazimento empobrecido, das formas de vida cotidiana dominadas por um sistema castrador, mas que gera conforto, e por isso precisa ser visto de maneira criativa, literária, até mesmo bela. Quem diz o contrário só pode escrever livros anacrônicos, dizem os editores saídos da classe média. Para eles, a melhor das artes nunca mais sairá dos condomínios.






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