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- segundaviablog
- 30 de mar. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 30 de mar. de 2025

Personagens
Escritor
Esposa
Repórter
Capitão
Marinheiros
Milionária
Garçom
Piratas
O escritor está sentado em uma cadeira olhando para o rio. Chega o repórter. Os dois iniciam o diálogo
Escritor – bem, creio que agora podemos atender você.
Repórter - agradeço muito por isso. Posso iniciar o gravador?
Escritor – por certo que sim. Tudo que digo em privado confirmo em público.
Reporter – sim, já me disseram que uma das suas grandes virtudes é a sinceridade.
Escritor – me vejo mais como um humanista. É algo de que posso me orgulhar.
Repórter - e os prêmios, não se orgulha?
Escritor - são para minha obra.
Repórter - mas foi você quem escreveu.
O escritor balança seu drinque. Toma um gole.
Escritor – sim, mas sob o signo de minha época e de meu povo. Divido isso com eles. Até por essa razão que vim receber essa homenagem em minha terra.
Repórter- ah, sim. Já me disseram que faz anos que não andava por aqui, apesar de que sua obra sempre traz a paisagem natal em seus textos.
Escritor - então, é preciso distanciar para melhor conhecer. Verdade também que me sinto mais identificado com Lisboa. Me dou esse direito.
Repórter - um filho pródigo da terra que sempre retorna.
Escritor – e sempre fala de seu lugar.
Repórter - sim, e isso é algo que lhe trouxe grande fama, não?
Escritor – artistas não são famosos neste país. Na Europa, talvez. De todo modo, vim aqui compartilhar de meus modestos êxitos.
Repórter - e como avalia a situação de sua cidade?
Escritor – ah, não me reconheço mais nela. O poético lugar em que vivi desapareceu. Também não há mais arte. A literatura por lá deu seu último suspiro há tempos.
Repórter - não encontrou nada de valor na produção recente?
Escritor – para ser sincero, nem sei o que andam fazendo. Difícil, com tantos compromissos, não fico assim tão disponível.
Repórter - de todo modo, tem se engajado em causas políticas. Acompanho nas suas redes sociais.
Escritor – sim, com certeza. Creio ser meu dever como intelectual. É uma tarefa da qual não me furto.
Repórter - vejo mesmo. Está sempre muito empenhado na questão dos economistas sérvios.
Escritor- é uma causa muito séria e que me toca bastante. Muitos deles ficaram sem emprego na pandemia e não conseguiram se recolocar em seu país. Estou lutando continuamente pela sua revalorização. Mas, confesso que há aí uma questão particular. Tive um tio-avô de origem sérvia e que era do ramo. Uma pessoa que me influenciou muito na infância. Faço essa luta também por ele.
Repórter - louvável. Falando nisso, o que tem achado do crescimento da pobreza em seu estado nos últimos anos? E como intelectual, o que pensa que pode fazer?
Escritor – bem, eu, ah. É uma questão de conjuntura, não acha? Da minha parte, eu penso que talvez, bom. O certo é que os economistas sérvios estão em maus lençóis e precisam de ajuda.
Entra a esposa do escritor, também com uma taça na mão
Esposa -querido, estava procurando por você.
Escritor – ora, estava por aqui tomando um ar e apreciando a paisagem amazônica. Já conhece nosso repórter, designado pelo portal exclusivamente para nos acompanhar em viagem?
Esposa – ah, é um prazer.
Repórter - você é a Sra. Lasalle não?
Escritor responde rapidamente
-não não. Esse foi meu quarto casamento. Já estou no sexto.
Repórter - ah, mil perdões.
Esposa - não se preocupe. A culpa é dele.
Escritor – gosto de levar uma vida pessoal discreta.
Repórter - não faz mal em ser assim com certeza.
Esposa- bom, querido, de todo modo, precisamos nos arrumar. O baile será daqui a pouco. Lembre que o capitão ficou de referir-se a sua presença.
Escritor – ah, claro claro. Preciso estar vestido a caráter. Para ser sincero, não gosto muito dessas coisas. Porém as encaro como um dever artístico, uma obrigação que cumpro. Bem, até logo.
Repórter - mas nem começamos a entrevista. Não fiz nenhuma das perguntas programadas.
Esposa – vai ficar para depois. Não podemos nos atrasar.
Escritor – ela tem razão. De qualquer modo, já tem um bom material aí. No mais, convido-o a juntar-se conosco em nossa mesa. Assim, pode realizar anotações sobre nosso perfil discreto e elegante.
Repórter - nada como entrevistar um grande mestre das palavras. Sempre encontra a melhor forma de escrita.
Escritor – nada demais. Cumpro apenas minha obrigação.
Cena 2 – ocorre o baile. Na mesa, estão sentados o escritor, a esposa, o repórter e a milionária. Todos bebem e se divertem, enquanto a banda toca canções de Big Bands.
Milionária - um escritor, não. O Escritor. Que emoção! Que emoção!
Esposa- falei que ele não se importaria de tomar lugar conosco.
Milionária - e eu imaginando que vocês eram inacessíveis. Que nada! Seu marido é uma simpatia.
Esposa- olha, eu que convivo nesse meio, posso falar. Nem todos são assim. Costumam ficar sisudos e olhar para os outros de cima para baixo. Mas ele não. Ele é um achado.
Milionária - ah, que lindo, que ótimo. Pois saiba que serão hospedados com muita honra em meu sítio. Vão adorar a vista e a tranquilidade, além de nossa piscina coberta. O maior gênio da raça em minha casa! Vai ser divino!
O garçom traz uma bebida para o escritor. Ele responde com fria rispidez.
-eu pedi vodca, e não martini.
Garçom - desculpe, vou trocar.
Escritor-por certo que sim.
Repórter - sabe, uma coisa ainda me intriga. Por que resolveu voltar de navio? Não seria mais prático ter viajado de avião?
Escritor – essa é uma pergunta que alguns outros já me fizeram. Verdade é que queria um período mais longo para me reconectar com a floresta e os rios. Sentir de novo o pertencimento a esse lugar. É uma coisa necessária para mim e para a obra que estou escrevendo.
Repórter - ah, então teremos um livro novo?
Milionária - minha nossa, que surpresa. E que tal dar algo sobre ele em primeira mão pra gente?
Esposa – ele nunca fala sobre o que está escrevendo, nem para mim.
Escritor- é importante gerar expectativas, ha ha.
Repórter- mas terá então algo a ver com a selva?
Escritor- terá, mas não da maneira usual. Vou falar de uma perspectiva muito própria.
Milionária - uh, um romance intimista então.
Escritor – talvez. Sem mais detalhes por enquanto.
Todos bebem. O capitão toma a palavra e a música se interrompe.
Capitão - senhoras e senhores, é como muita honra que informo que viaja entre nós o maior lume literário da história de nosso estado e, quiçá, de nosso país, e que vai até Manaus para receber uma honraria pela conquista do Grande Prêmio Literário do Mundo.
Todos aplaudem.
Capitão - e, como forma de prestar nosso agradecimento por privar de tão importante companhia, vou aqui declamar o primeiro poema que li de sua grande obra, e que me marcou profundamente em minha nem tão distante juventude.
O capitão coloca as mãos nos bolsos, mas nada encontra. Disfarça. Imposta o peito, e indica que vai declamar os versos de cor, porém não se lembra de nada.
Capitão - ou quem sabe nosso escritor não prefere nos brindar com suas palavras e algum trecho de sua obra?
Todos aplaudem novamente e acham a ideia magnífica. O escritor lança uma relutância fingida enquanto se dirige ao palco.
Escritor – na verdade, gostaria apenas de agradecer pela acolhida, e dizer que se pudesse viajaria no mínimo um mês entre vocês.
Todos aplaudem e gritam. Mas pedem também em coro que ele faça uma declamação.
Escritor – bom, já que é assim, vou declamar um de meus primeiros poemas, que provavelmente deve ser o da preferência do capitão. Até porque foi o único que lembro de ter publicado. Sou escritor de ficção.
O capitão ri.
Quando o escritor se posta para falar seu poema, o movimento do barco se interrompe bruscamente. Todos ouvem o som de uma batida. O público fica atordoado e confuso. Os marinheiros correm na direção do capitão.
Marinheiro 1 - capitão, capitão.
Capitão - falem logo.
Marinheiro 2 – bem avisei que essa rota não era a melhor.
Marinheiro 1 – a seca nos pegou com um barranco.
Escritor – seca? Que seca?
Marinheiro 1 – sabe não? Estamos vivendo a maior estiagem da história.
Marinheiro 2 – O senhor que é culto deveria saber.
Escritor – tenho muitas ocupações.
Marinheiro 2 – mas deveria olhar pelo menos as notícias do seu estado.
Marinheiro 1 – ou da cidade pra que está viajando.
Capitão - calados! Mais respeito com nosso grande autor. Ele não é meteorologista nem apresentador de jornal. Vocês, corram já para ver os danos. Eu vou tentar fazer um pedido de ajuda.
Todos são informados do problema e que por enquanto este não requer maiores preocupações. Segue o baile. O escritor volta a beber em sua mesa.
Escritor – esses marinheiros são uns abusados. Ficaram me fustigando.
Milionária - funcionário bom hoje é difícil de encontrar. Eu que o diga. Não ligue.
Esposa – sim, é melhor mesmo.
Repórter - mas não tinha mesmo notícias da seca? Não viu nada disso em lugar nenhum?
Escritor – meu amigo, parece que é bem pouco viajado. Para esse lugar virar notícia fora tem de acontecer algo bastante ruim. E agora vamos beber e parar com esse assunto.
Os marinheiros entram, dessa vez com as mãos na cabeça, seguidos pelo capitão. Atrás deles, um grupo de homens armados, que começam a dar tiros para o alto.
Escritor – o que é isso?
Repórter - piratas dos rios.
Esposa – mas atacando um navio desses?
Escritor – piratas dos rios?
Repórter - devem ter sentido a facilidade e resolveram aproveitar.
Milionária - ah não! Que horror! Vamos todos morrer agora!
Um pirata vigia o capitão e os marinheiros, enquanto outros recolhem os pertences dos viajantes de mesa em mesa, até que o líder deles chega à mesa do escritor
Pirata- eu conheço você.
Escritor – eu não conheço você.
Pirata – pelo visto está a fim de morrer.
Escritor – e pelo visto há uma diferença aqui.
Milionária - levem o que quiserem. Não vamos resistir.
Pirata - já estamos fazendo isso. Passem as joias, telefones e carteira.
Eles vão colocando tudo na sacola. O pirata olha fixamente para o escritor.
Pirata – essa medalha aí também.
Escritor – mas é meu prêmio.
Pirata - não me interessa, passe.
Escritor, após hesitar um segundo.
-pensando bem, você não vai levar nada daqui. Sabe por quê? Porque você é medíocre. Pensa que me ameaça com essas armas e tiros, mas o fato é que você não tem grandeza nem força para estar diante de alguém como eu. Veja, eu sou imortal, minha obra ecoará pelos anos, enquanto você não é nada, e nosso único erro até agora foi tratá-lo como alguma coisa. Portanto, pegue seus colegas marginais e saia daqui o quanto antes, pois não vai ser um resto de lixo como você que fará o vencedor do Grande Prêmio Literário do Mundo entregar qualquer coisa.
O pirata olha para o escritor seriamente, e em seguida cai no riso. Todos na mesa vão às gargalhadas, menos o escritor. Nesse momento, fogos de artifício começam a estourar nos céus. O salão escurece e a cena se encerra.
Cena 3 - Velório. Teatro Amazonas. Muitas autoridades e acadêmicos presentes. Todos em silêncio. No fundo do salão, o secretário de cultura conversa com a agora viúva do escritor.
-então, o que me diz?
-o quê?
-já decidiu?
-sobre?
-escola ou viaduto?
-ah
-pode ser qual quiser, mas precisa escolher.
-tem de ser agora?
-sabe como essas coisas são burocráticas. Também tem a concorrência. Só de familiares do governo tem uma lista imensa.
-compreendo.
-pode pensar mais se preferir, mas não garanto que alguém não vá furar a fila.
-se é assim, fico com o viaduto. É numa área movimentada e vai ficar mais fácil para lembrarem dele. Além disso, não se fazem mais escolas no centro, e duvido muito que ele quisesse seu nome no muro de uma escola abandonada da ZL.
-faz sentido. Será feito.
-certamente algo muito justo.
-digno.
Cai o pano.






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