Política como meio, arte como fim
- segundaviablog
- 6 de set.
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Uma questão que pode inquietar os mais ansiosos diz respeito ao mundo construído após a revolução, diante do qual seria válido pensar o que viria, ou melhor, o que restaria à humanidade fazer quando tivesse ultrapassado o tal reino da liberdade e enveredasse na plenitude das satisfações básicas atendidas, do tempo livre de qualidade e da fraternidade básica entre os povos. Os que interpretam essa projeção em termos conservadores sem dúvida têm motivos para ficar preocupados. Afinal, nas raras nações conhecidas hoje em que se alcançou um mínimo satisfatório de igualdade social e condições de vida, a existência costuma ser regrada por um imenso tédio e uma sensação de perda de sentido, os quais somente os mais ricos são capazes de ao menos tentar escamotear por meio de uma rotina desenfreada de consumo. Porém, inclusive nesses casos, apenas os menos exigentes podem chamar a realidade em que se encontram de satisfatória. Os que nutrem aspirações menos modestas seguem em queda livre no vácuo de si mesmos e do mundo ao redor.
Supérfluo pensar muito a fundo esses problemas para identificá-los com a crise permanente do mundo burguês, solidificado sob as bases do trabalho alienante e exploratório e da extração contínua da mais-valia, e que faz com que os indivíduos percam continuamente a autonomia e não se portem mais como sujeitos diante de sua própria liberdade, ou seja, quando não estão submetidos ao jugo da opressão diária capitalista. Nesse panorama, o reino da necessidade está sempre confundido com a vida em si mesma.
Mas esses são fatos sabidos e não é deles que pretendemos falar. Inclusive, há uma ampla literatura filosófica e artística a respeito de tais problemas, que se propaga continuamente. O que nos interessa pensar aqui, num nível mais fundamental, é o que pode acontecer numa realidade em que se alcançou efetivamente o bem-estar comum e as pessoas estão finalmente disponíveis qualitativamente para desfrutar e desenvolver suas habilidades e interesses. Sem dúvida, não se pode imaginar, nem planejar, que elas cairiam no limbo das sensualidades desmesuradas ou da acumulação, pois seriam estes estágios já ultrapassados, não no sentido moral, mas sobretudo enquanto projeto criador de existência. Homens e mulheres, quando autonomizados e senhores e senhoras de si, certamente buscariam algo que pudesse ampliar suas forças e as potências próprias, e não somente desgastá-las a fim de anestesiar seus corpos. A política, sem dúvida, seria um elemento claro e básico de ação, porém nem só dela, assim como do trabalho, seria feita a vida. Pelo contrário, ambos a comporiam imanentemente, mas faltaria o acontecimento a mais que justamente pusesse os indivíduos fora de qualquer esfera de demanda social mais direta, que os fizesse sentir que ali realizavam sobretudo a eles mesmos e por eles mesmos, no que experimentariam o autêntico fulcro da liberdade socialista. Nesse horizonte, somente a arte poderia ser vista como prática completamente satisfatória, posto ser o caminho mais prolífico em que o sujeito atua rumo a sua própria humanização.
Não é impertinente questionar se a ciência e o pensamento não comporiam com a arte uma tríade das atividades afirmadoras da humanidade livre. Decerto, não se põe em dúvida a força transfiguradora dessas atividades, nem tampouco se as coloca em uma hierarquia inferior no conjunto das práticas subjetivas. Entretanto, é impossível não considerar que ambas possuem um atrelamento muito maior às funções de necessidade dos indivíduos que a arte, de maneira que sua atuação pode ser facilmente confundida com o trabalho necessário puro e simples. Por essa razão, é que vemos com exatidão nas artes, e naquilo que em nelas há de pensamento e ciência, a síntese mais adequada para definir o agir humano para depois de superado o estágio de garantia de suas ordinárias condições de vida.
Assim, pensando pelas linhas aqui traçadas, o que afirmamos é que a revolução comunista ensejará um novo tipo de sociedade, na qual cada um estará liberado de maiores obrigações na maior parte de seu tempo, e que muito provavelmente encontrará na arte, seja pela fruição ou criação, o sentido mais agudo de sua ação livre. Logo, é dentro dessa acepção que julgamos válido o dito de Lukács de que a política é o meio e a arte é o fim.
Claro que tal definição nos obriga a pensar mais detidamente o que a arte vem a ser e também o papel desempenhado por ela em nossa sociedade. Em termos gerais, podemos defini-la como sendo toda produção com fins precipuamente estéticos. Contudo, sob a lógica materialista dialética, a mera estetização não tem meios de ser condição soberana para justificar o devir artístico, de modo que este precisa estar atrelado a uma intuição sensível do real, que ele busca refletir de maneira significativa ao sujeito por meio de suas manifestações. Pela arte, nós nos aproximamos do mundo, ainda que o modo de exposição em si não tenha vínculos diretos com o representado. Aqui, é importante definir a diferença que há entre reflexo e imitação. A arte não tenta se igualar ao real, e sim espelhá-lo, o que significa uma maior liberdade criativa no processo de reflexão. O artista, sem necessariamente emular os caracteres próprios de sua experiência, gera desdobramentos que ajudam a encontrá-los dentro de uma ordem que muitas vezes oferece acesso a zonas que materialmente não são identificáveis, mas que se abrem à sensibilidade da ação estética. Desse modo, o que a arte proporciona é uma integração de mundo, porém por um método e um caminho que não se mistura com a concretude factual e científica, embora tenha potencial para ir até mesmo além desta na compreensão da realidade circundante.
Por óbvio, não é toda vez que as metas projetadas são atendidas. Nas mediações artísticas de mundo, é muito fácil perder-se no caminho, e esvair do horizonte o ponto de referência. Nesse estágio, o que aparece é uma arte decadente, simples estetismo alienante, típico dos idealismos tardios, e com consequências bastante perniciosas mas que não nos convém debater, uma vez que o percurso traçado no presente ensaio prevê uma sociedade emancipada e livre de tais incidências, na qual a arte trafega na esteira de suas linhas emancipatórias originais.
Nesse sentido, a arte não é, como pensava Schopenhauer, um refúgio das mazelas do mundo. Para este, a humanidade padecia da incurável doença do desejo e da frustração, que jamais poderia ser sanada em sua plenitude. Contra isso, o filósofo pregava uma certa forma de ascese que consistia em desapegar-se da volição e desprender-se das armadilhas da vontade, alcançando dessa maneira a felicidade possível, no caso, configurada na ausência de sofrimento. É claro que, quando Schopenhauer se reporta a tais questões, ele está falando do indivíduo materialmente satisfeito, tal como ele era, e o caráter de classe inibe a universalidade de suas proposições. Porém, elucubrando dentro dessa categoria, ele prevê que a única saída criadora diante das perturbações da existência se encontra articulada no fruir artístico, capaz de elevar o humano de seu estado precário para uma condição superior, em que enfim pode aspirar a um grau de elevação.
Nossa visão, sem dúvida, difere da do autor de O mundo como vontade e representação, embora não desconsidere em essência os problemas levantados por seu pensamento. A arte não desconecta do mundo; pelo contrário, reintegra cada um de nós a ele, porém de uma forma humanizadora, pelas vias autênticas da força subjetiva. Com isso, almejamos pela arte nos tornar cada vez mais apropriados das coisas circundantes, bem como de seus significados específicos para o ser humano. Contudo, o raciocínio subliminar do filósofo nos é bastante caro. Somente inteiramente supridos das necessidades materiais poderemos experienciar a arte em todas as suas potencialidades. De igual maneira, é preciso que estejamos em alguma medida livres dos anseios insidiosos do consumo, que constituem a grande roda interminável dos desejos contemporâneos, bem como é mister mantermos uma relação saudável com nossos intentos emotivos e sexuais, os quais, ressalte-se também, são constantemente degradados pelos reclames intensificadores do capital, que os instigam para além dos seus limites. Logo, e nisso superamos a metafísica schopenhaueriana sem ignorar seus problemas concretos, é preciso construir um outro modelo de sociedade para que os fins artísticos propostos possam fluir, num processo do qual, como já dissemos, a política é o meio legítimo para tanto.
É errôneo pensar que essa sociedade erigida para as artes seja moldada como uma comunidade educada para o ócio, como pretendia Bertrand Russell. Na verdade, nenhum outro projeto exigiria um sujeito mais ativo e igualmente ligado à práxis transfiguradora do trabalho. A diferença, no entanto, é que uma vez produzindo para si, este não se sentiria mais constrangido pela opressão do labor imposto, bem como não se dedicaria mais ao ofício do que aquilo que a necessidade lhe exige. Contudo, sua atividade manteria crescente a energia vital produtiva, que se dirigiria em parte também para o viver artístico. Portanto, não se trata de nenhuma maneira de nos voltarmos para o ócio, e sim para formas mais estimulantes e criativas de existência, que pudessem ampliar ao máximo as capacidades de cada ser humano.
Para esse novo momento, sem dúvida uma renovada arte seria exigida. Nesse caso, as coisas não são tão simples de resolver, pois os caminhos artísticos são múltiplos e refratários a receitas pré-estabelecidas. Assim, não nos cabe nem a ninguém de nenhum modo propor uma estética oficial que direcione restritamente os rumos das práticas dos artistas. Nada mais contrário à arte do que isso. No entanto, é importante refletir de que modo a arte se desdobraria nos termos aqui vislumbrados e oferecidos.
A arte no mundo burguês declinou até converter-se na pura expressão da miséria ideológica ou nos ditames monetários da indústria cultural. Neste último aspecto, ela não é mais do que uma simples mercadoria que se imiscui na ordem dos produtos de decoração e entretenimento, encontrando nas redes sociais o seu mais eficiente algoz. Adorno, em suas considerações elaboradas juntamente com Horckheimer, já previa que a mercadologização da arte a faria ingressar nas relações de produção como puro valor de troca, excluindo com isso a singularidade de suas constituições e convertendo-se em um objeto indistinto não somente do kitsch e meios de entretenimento como também de outras mercadorias quaisquer. Hoje, vivemos a era da chamada economia da atenção, em que o que se disputa não é mais o interesse em obter uma coisa ou outra, e sim o tempo dedicado a cada uma delas, num embate em que inevitavelmente os produtos de distribuição em massa levam vantagem, como a ciência tem nos explicado, por força das imensas quantidades de dopamina que despejam em nossos organismos, e que produzem sujeitos viciados e sujeitados a essa dinâmica de unidimensionalização patológica da vida. Nesse quadro, à arte resta muito pouco ou nada quanto ao espaço que lhe é oferecido, e somente alguns cada vez mais raros estão aptos ou resistentes o bastante para seguir experienciando-a. Como reação, os artistas procuram recolocar-se integrando-se cada vez mais ao fluxo de consumo, gerando obras que dialoguem com os termos e estéticas industriais, num movimento que bem poderíamos denominar atualização, não fosse ele um progresso da expansão hegemônica da lógica de mercado, trazendo como consequência única e inescapável o desparecimento da própria arte enquanto construto original, cedido que está aos estratagemas da produção em série.
Assim, mesmo com todas essas concessões, os artistas seguem perdendo a guerra. O caso da arte narrativa talvez seja o mais emblemático. Obras cinematográficas, até mesmo voltadas para o grande público, têm seus espectadores reduzidos, enquanto proliferam no TikTok e afins pequenas narrativas dos ditos influenciadores que são seguidos aos milhões. Em tal fenômeno, nota-se a tendência para o vídeo curto e direto, que imediatamente entrega o que nem mesmo propõe, para logo a seguir dar lugar a outro de iguais características. Diante disso, as histórias complexas e elaboradas vão sendo vistas cada vez mais como monótonas e muito longas, pois o clímax surge sempre como resultado de uma certa construção. Alguns trabalhos, por sua vez, procuram compensar isso com uma sucessão ininterrupta de acontecimentos frenéticos. Porém, nem mesmo esta é capaz de rivalizar com as tramas de 90 segundos, pois o desfecho que tanto se quer conhecido continua sendo arremessado para duas horas depois de iniciado o filme.
Na literatura, os problemas são ainda mais graves. Diríamos até, em termos radicais, que o ritmo da leitura de um livro não mais acompanha o ritmo de nossa existência cotidiana. O trabalho de ler uma obra normalmente dura semanas ou meses, o que a põe numa dinâmica que sequer pode ser comparada com a que é oferecida pelos concorrentes em voga. Afora isso, e talvez de modo ainda mais problemático, vêm as tarefas do imaginário. Na obra literária, todo o conteúdo imagético deve ser construído pelo próprio leitor, a quem o texto oferece descrições e sugestões que, por mais minuciosas que sejam, não materializam as imagens apresentadas. O estranho disso é pensar que essas características deveriam soar como vantagem, posto que o indivíduo dispõe de liberdade para criar as personagens e ações conforme seus desígnios. Mas, na prática, não é isso que ocorre. O objeto pronto e acabado oferece à grande maioria uma comodidade de que não abre mão, bem como facilita a compulsão por seu consumo, de maneira que o livro se torna para eles um item obsoleto, ultrapassado e pouco atrativo. Dessa forma, a literatura vai sendo cada vez mais confinada a nichos estreitos e de menor repercussão, o que se pode constatar nas manifestações mais amplas da cultura. Raramente, uma personagem literária recente ingressa no repertório comum. Se antes falávamos de Capitu e Bentinho sem risco de não sermos entendidos, hoje não há figura de livros contemporâneos que possa usufruir dessa prerrogativa. Quando alguma personagem cresce em importância, isso se dá frequentemente por meio de outras mídias. Assim, fica claro que o espaço concedido ao literário tem sido cada vez menor, e sua ressonância mais diminuta ainda. De qualquer modo, nada disso aponta para uma diminuição da importância, em termos fundamentais, das produções literárias para os sujeitos humanos. A crise que existe é de circulação. Na sua constituição básica, em que pesem os dilemas de sua elaboração nos dias de hoje, os livros ainda dispõem de muito o que dizer.
O destino reservado à narrativa para os de nossa época escapam às previsões antes feitas. Se em outro momento se falava da perda da narrativa pela falta de experiências, hoje o que temos é não somente tal ausência, mas sim uma recomposição do narrar a partir de falsas experiências. O youtuber ou tiktoker simula estar numa viagem em que se perde de seus amigos, e entra numa espiral de aventuras. A história é claramente mal contada e com parcas dramatizações, jogando fora qualquer pretensão de verossimilhança. Mas o simples aceno de experimentação e o vislumbre de verdade já são suficientes para deixar o público satisfeito, de modo que é a não-experiência, ou seu simples simulacro, o termo suficiente para contentar os que assistem de forma neurótica as historinhas que se fazem aos milhões e se propagam em igual quantificação.
Ingênuo seria acreditar que a parafernália da indústria cultural se desfaria de um só golpe com o fim da sociedade capitalista. Sua estrutura encontra bases mais profundas do que a ordem econômica em rotação, e dispõe de meios para subsistência mesmo em uma sociedade emancipada, o que se explica pelo fato de que estamos falando de um ramo industrial que não apresenta nada de novo no que diz respeito à arte e à cultura em seu conteúdo. A rigor, o que ela faz é potencializar ao limite os mecanismos emotivos e excitadores dos quais os artistas já se valiam para atrair seu público, e que agora se colocam a serviço de uma linha de produção, quer dizer, se antes o autor dosava com parcimônia a quantidade de conteúdo sentimental ou apelativo, com a indústria cultural, a obra é tanto melhor quanto mais consegue estimular os afetos dos indivíduos, de modo a estes não conseguirem sair nunca de sua teia hipnotizadora, ficando então presos eternamente nessa ilha de Calipso, imbuídos de uma voluntária devoção.
Isso não é algo que se desfaz por decreto, tampouco por coerções violentas. De nada vale pôr fim a essas produções, ou instituir, como já foi tentado catastroficamente na URSS, uma estética oficial. Agindo dentro dessa linha, o resultado mais provável a ser obtido será o de que manifestações do tipo censurado passem a dominar as mentes dos indivíduos de modo subterrâneo, sem que sejam debatidas de forma explícita e ao mesmo tempo tornando-se ainda mais tenazes e presentes, ou, o que seria pior – e efetivamente ocorreu na extinta experiência soviética - abriria uma clareira para que surgissem polos antirrevolucionários que questionassem justamente essa proibição, e que ofereceriam por sua vez maquinações em larga escala e tentariam com estas justamente cooptar os carentes de tais produtos, os quais seriam então apresentados como signos de liberdade e prazer autêntico. Está aí uma arapuca em que nenhuma proposta socialista tem mais o direito de cair.
Dadas as condições, portanto, a melhor contraproposta deveria ser no rumo de uma despatologização do ser social, ou seja, de uma tentativa de imunizar a comunidade quanto aos recursos aprisionantes dessa indústria, e buscar aos poucos desmistificar sua organização produtiva, tornando cada vez mais claros seus procedimentos manipulatórios e sua fuga aos problemas reais do mundo, os quais teríamos que tentar haver recuperados sob uma cultura crítica. Por certo, estamos falando de algo que é muito mais fácil de falar de que pôr em execução. Um largo aparato educacional teria que ser mobilizado para tanto, e, paralelamente a isso, uma psicologia de massas emancipadora precisaria ser instaurada, num esforço difícil e absolutamente incerto, mas que nos parece ser o único com chances de algum êxito.
Uma outra ideia, talvez mais prolífica, seja estimular a autoprodução artísticas do povo, para que ele próprio produza a arte que deseja. Sabemos que isso já é feito de uma forma ou de outra, porém, no capitalismo em voga, a influência e o controle dos grandes conglomerados empresariais impedem que essas ações ganhem caracteres mais autônomos, ou, quando dispõem deles, são logo apropriados pela dinâmica de mercado. Em oposição a isso, o fomento por uma arte mais direta e que se permita desenvolver de modo independente certamente traria uma contradição popular espontânea aos ditames das pasteurizadas mercadorias culturais. Portanto, está aí um princípio que deveria ser adotado ostensivamente.
As condições de implementação dessas novas práticas no meio social, embora tivessem de ser mais favorável numa orientação política socialista, certamente enfrentariam barreiras culturais junto à mais densa camada da população, por força de hábitos arraigados e necessidades do mundo a construir. A tarefa de ultrapassar as demandas mais básicas humanas, uma vez estabelecida como meta em escalas nacionais e mundiais, mobilizaria esforços que eventualmente tornassem inviáveis os deslocamentos de recursos para outras atividades. Mas é preciso lembrar que falamos sempre da arte como fim e não como meio. Logo, é de se esperar que suceda um longo período de transição, possivelmente até maior do que aquele do socialismo ao comunismo, para que tenhamos nos acostumado a uma vivência que nos deixe à vontade diante de uma vida voltada para a experiência das artes, período no qual sem dúvida irá se destacar a posição do político. Antes de artísticos, os indivíduos precisarão ingressar com vigor na politização, envolver-se em suas práticas com o máximo de suas forças, para depois então, num quadro de estabilidade, poderem dedicar-se a outros interesses, gerando desse modo o artista e o espectador emancipado, que também olhará a arte sob lentes que não serão mais as enfraquecidas que vigoravam antes.
Contudo, há que se atentar para um risco que pode aparecer nesse processo transitório, e que consiste na hiperpolitização do fazer artístico. Se as obras inevitavelmente não podem deixar de ser políticas, tampouco o político pode prevalecer sobre o seu devir, pois isso pode levar a sua imobilização e a uma subalternização que o converteria em um mero mostruário das teses dominantes nas questões públicas, o que seria altamente redutor e findaria por impedir a arte de cumprir sua tarefa humanizante em sentido abrangente. Logo, além de jamais cairmos na tentação de uma estética oficial, é preciso atentarmos em termos críticos para um possível exagero hegemônico da política entre as artes, tarefa essa que demandará de todos uma franca contribuição.
Algumas artes elaboradas hoje contribuem para pensar um pouco o cenário acima descrito e seus potenciais prejuízos. Na literatura praticada por alguns de nossos contemporâneos, por exemplo, muitas obras têm se destacado muito mais pelas bandeiras sociais que levantam que por seus méritos narrativos e poéticos, fazendo com isso prevalecer o discurso, convertendo-as não mais em manifestações da poiésis ou do mithos, e sim tão apenas do logos. Como resultado, a sensibilidade artística vem desaparecendo, deixando somente homens e mulheres rígidos e prenhes de conflitos, mas que não os elaboram nem os colocam em perspectivas para além do que permite a lógica posta em dominância, uma vez que isso é algo que somente a arte poderia trazer.
Contra tal tendência, o combate deve ser constante, porém gradual. Não se pode de nenhuma maneira desestimular a força da ação política, e sim direcionar, na medida do possível, parte desse ímpeto para a experiência artística, a fim de construir o ser total, que pudesse estar apto a explorar todas as dimensões do humano, sem que nenhuma delas fosse penalizada ou subsumida. Entretanto, vale sempre lembrar que esse é o resultado esperado e não o ponto de partida, e que uma longa jornada se coloca entre os dois.
Mas, e quanto ao artista? Como ele se insere dentro desse contexto? Deve ele ser um especialista ou também um indivíduo múltiplo? Como a nova sociedade permitirá o seu surgimento? Terá ele um estatuto diferenciado frente aos demais, por conta de seu papel-chave na comunidade ascendente? Essas perguntas merecem reflexão.
Não é aceitável que ainda caiamos nos erros de um igualitarismo raso e que achemos que a absoluta igualdade social seja a missão do socialismo. Quando falamos de igualdade, tratamos obviamente do acesso irrestrito de todos a tudo aquilo de que precisam para garantir uma existência socialmente digna. No entanto, é de se imaginar que alguns indivíduos ou pessoas ganhem certo destaque e projeção, a ponto de serem vistos com mais ou menos deferência. Sem dúvida, devemos estar atentos para que isso não descambe para um culto nocivo da personalidade, mas acreditar que é possível ou mesmo saudável oprimir fenômenos dessa natureza não passa de uma ilusão que é tão ou mais perigosa que seu contrário.
Logo, o que devemos exigir do artista revolucionário não é que ele não se preste a praticar as idiossincrasias próprias de sua atividade, nem que não seja de algum modo destacado enquanto provido de habilidades criadoras, mas sim que não perca, sobretudo no horizonte constitutivo de sua arte, a noção de sua tarefa social, de modo a compreender permanentemente que seu ofício se realiza somente nos parâmetros de sua integração à vida comunitária, e que sua obra nunca será simplesmente a consecução de um projeto de extrema individualidade, mas sim que esta se encontra fincada numa relação dialética com o todo social, do qual ele mesmo faz parte e que confere sentido a sua ação. Aliás, seria até difícil pensar que, longe das fetichizações do capital, um artista consiga se manter agindo distante desses modelos. Contudo, é uma missão da coletividade cuidar para que esses nexos não sejam desfeitos e que não se gere nenhum tipo de confusão sobre os princípios ora estabelecidos.
Por outro lado, é preciso se lembrar que esse equilíbrio não é simples, uma vez que não pode ser nem presumido ou imposto a priori. O artista só pode trabalhar em condição de liberdade, de maneira que é totalmente inaceitável qualquer tipo de censura. Logo, será por meio da crítica ampla e irrestrita que as figuras deletérias da autenticidade estética poderão ser organicamente postas de lado, sem que para isso haja algum tipo de violência. É devido ao próprio público pensar a validade ou não das criações surgentes.
No mais, é interessante que o artista possa participar o máximo da vida coletiva, sem no entanto comprometer a disponibilidade para sua produção. Porém, este é um tema que não se resolve de modo ideal nem por leis regimentais. A medida do palpável está em cada agente de ação.
As considerações aqui elaboradas parecem tomar um ar bastante abstrato quando se as pensa somente enquanto projeção de uma sociedade a advir. Certamente, a preocupação que a maioria de nós tem é sobre o que podemos fazer hoje para alterar o estado de coisas em algum nível. De certo modo, nossa análise não deixa de passar por um exame do presente. Contudo, é certo que falta-nos apontar um caminho mais efetivo para que a arte se realize ou pelo menos seja visualizada enquanto possibilidade maior entre o público hodierno.
Isso não é uma tarefa simples, uma vez que, como falamos, a arte se encontra soterrada ou pelas colunas da indústria cultural, ou pelas ruínas de suas próprias criações, que parecem não mais emergir para a esfera coletiva mais abrangente. Os artistas, por sua vez, encontram-se dispersos e até mesmo integrados a esse novo conjunto de diretrizes, de maneira que não parecem se incomodar com o lugar que que lhes foi destinado na cultura, isso quando não se tornam apenas bobos da corte para as elites pseudoilustradas. A politização, embora existente, é fragmentária, de maneira que cada um dirige seus interesses para causas nichadas e desprovidas de articulação contra o capital.
Diante disso, a primeira tarefa da arte e dos artistas, ao que parece, é a de inicialmente constituir um lócus próprio para sua atuação, ou seja, estabelecer elementos distintivos que permitam pensar novamente a arte enquanto atividade específica, para então conseguir conversar com a comunidade nos seus termos, os quais sem dúvidas não podem ser refratários às demandas contemporâneas, mas que não devem abrir mão daquilo que a define em si mesma.
Concomitantemente a isso, uma politização maior dos artistas, o que não quer dizer necessariamente de sua arte, é imprescindível, para que estes possam situar-se no debate comum com voz e direção. Mais uma vez, e disso devemos nos lembrar sempre, estamos ainda no momento da política como meio, e não convém colocar os fins antes deste. Portanto, o sujeito das artes é o sujeito politizado sobretudo, e somente desse modo ele alcançará a liberdade estética para a humanidade inteira, e que será também a dele mesmo, bem como da arte em sua potência perene.






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