Realismo burgo-classe-média
- segundaviablog
- 25 de mar. de 2025
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Já é de há muito tempo que Lukács nos falava do decadentismo burguês e suas consequências na literatura. Em suas análises, as tendências literárias sob o domínio do sujeito individualista e ideologicamente congelado emanavam seus perigos com clara evidência. No entanto, os exageros e os exemplos duvidosos fizeram com que ignorássemos seus prenúncios.
Pois bem, então chegamos aos dias de hoje, e agora não há mais meios de pensar que o filósofo húngaro cometera um engano. O subjetivismo, formalmente configurado no modo de escrita em primeira pessoa, e ideologicamente instituído pela circunscrição aos parcos eventos do cotidiano, ascendeu à circunstância de problema central. Apoteose do homem comum, diriam muitos, só que nem tanto. A comunidade, de um modo geral, segue pobre e oprimida, enquanto que aqueles que escrevem são uma camada restrita da população que relata os dramas de uma vida confortável mas significativamente exígua.
Daí, sobram temas que, quando não juvenis, beiram à crônica de conversas de meninos na esquina: como fazer e usar drogas, o namoro que não deu certo, o rapaz que se chapou. Aos de mais idade, seguem as buscas do tempo perdido: professor amargurado com o vazio do dia a dia, escritores frustrados e entregues ao vício, figuras solitárias que envelhecem brigadas com o mundo. Quando não, uma incursão qualquer em algum tema erudito, permeado de rancor pseudoniilista. Tudo isso sem saltar um milímetro para fora de si. Literatura feita da janela do apartamento. Escritos robóticos do solipsismo.
Sem dúvida, a proliferação e o privilégio dessas propostas não se firmam sem um componente socio-econômico que lhes dê esteio. Os livros que surgem assim o são porque dessa forma pensam e vivem os que os publicam. Ou seja, o meio editorial hoje está saturado de personagens incrustadas na fina flor da classe média letrada, que sai diretamente dos bancos das faculdades com seus títulos acadêmicos e preenchem as vagas de selecionadores de talentos, no que, por óbvio, enxergam somente o espelho de si, tirante algumas outras manifestações que, embora distantes de seu leque, seguem à risca os modelos propagados em oficinas.
O que se perde com isso não se vê, nem se discute, embora seja muito conspícuo: a totalidade do real, sua multivariedade e complexo de relações, além da dialética insuperável do ser social e do indivíduo. O conteúdo, uma vez simplificado, não se presta mais ao confronto promovido pelo estético, e sim à conformidade com o já estabelecido, deixando apenas como resto o mal-estar contínuo e o gosto peremptório do que já se leu.
Na dramédia do fracasso capitalista, ri melhor quem dá-se por vencido.






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